Sobrevivência planetária e evolução da consciência: Raízes Psicológicas da Violência
Humana e da Ganância
Stanislav Grof, M.D., Ph.D.
Tradução de Álvaro Jardim
Resumo: As duas mais poderosas forças psicológicas
na história humana têm sido, sem dúvida, a violência e a ganância.
No entanto, a corrente global atual tem ampliado as conseqüências
envolvidas. Mais povos foram mortos nos últimos cem anos do que existiram
do alvorecer da humanidade até o último século. Temos o privilégio
dúbio de sermos a primeira espécie na história natural a ter alcançado
a capacidade de se erradicar e, nesse processo, destruir toda a vida
neste planeta. Contudo a crise global atual é de natureza psicoespiritual
e não pode ser resolvida, sem uma transformação interna radical da
humanidade, em larga escala. Quando esta pareceria ser uma tarefa
impossível, os conceitos teóricos recentes e as abordagens práticas
de numerosas fontes do novo paradigma oferecem novas promissoras estratégias,
que se incluem nas seguintes cinco categorias: desenvolvimento de
uma nova imagem do universo e de uma compreensão mais esclarecedora
da natureza humana e da psique; nova compreensão das raízes da agressão
maligna e violência humana; novos insights sobre a natureza da ganância
insaciável; abordagens experimentais facilitando a transformação pessoal
positiva, a evolução da consciência, a psicologia transpessoal, a
pesquisa da consciência e a crise global.
Tornou-se cada vez mais claro que a consciência não é um produto dos
processos fisiológicos no cérebro, mas é um atributo primário da existência.
Em última análise, a psique individual de cada um de nós está comensurada
com a totalidade da existência; a natureza mais profunda da humanidade
não é animal, mas divina.
A agressão maligna não reflete a verdadeira natureza humana; ela está
conectada a um domínio do inconsciente, a dinâmica perinatal que nos
separa da nossa identidade mais profunda. Em geral, aqueles que iniciam
as atividades de guerra e a violência estão substituindo, tipicamente,
elementos de suas próprias psiques por alvos externos, que deveriam
propriamente ser enfrentados na auto-exploração pessoal. As circunstâncias
do nascimento desempenham um papel importante em criar uma disposição
à violência e tendências autodestrutivas ou para comportamentos amorosos
e relacionamentos interpessoais saudáveis; assim, mudando as práticas
do nascimento, tornando-as mais amáveis e delicadas, poderia haver
um impacto enorme no grau de violência atuando no mundo.
As fontes perinatais da ganância encontram-se em um sentimento, o
descontentamento e o desconforto com a situação presente, o que quer
que ele possa ser. Como a criança emperrada no canal do nascimento,
o indivíduo sente a necessidade de alcançar uma situação melhor que
parece levar adiante, resultando numa estratégia de existência da
"corrida do rato", a qual é incapaz de levar à felicidade. As fontes
transpessoais da ganância encontram-se na nossa separação de nossa
verdadeira identidade com o divino, resultando no anseio por substituir
satisfações - Projeto Atman.
Entretanto, a esperança encontra-se numa abordagem experiencial profunda,
que facilita a transformação pessoal, através da morte e renascimento
psicoespiritual e da conexão com as memórias positivas do pós-natal
ou do pré-natal. Tais abordagens têm, consistentemente, resultado
na emergência da espiritualidade profunda, de uma natureza universal
e toda-abrangente, e de um desenvolvimento correspondente nos indivíduos,
de profundos interesses humanitários e ecológicos.
A situação global atual exteriorizou muitos dos temas essenciais da
dinâmica perinatal. Se continuarmos a atuar com a problemática das
tendências destrutivas e autodestrutivas originadas nas profundidades
do inconsciente, nós, indubitavelmente, destruiremos a nós próprios
e a vida neste planeta. Entretanto, se procedêssemos na internalização
deste processo, em uma escala extensa o bastante, poderia resultar
em um progresso evolucionário, que nos levaria tão além da nossa condição
presente como somos agora dos primatas. Assim, é essencial espalhar
a informação sobre estas possibilidades, para transformação e evolução
da consciência, e conseguir um número significativo de pessoas interessadas
pessoalmente em alcançá-las. Nós parecemos estar envolvidos em uma
corrida dramática com o tempo, sem nenhum precedente na história inteira
da humanidade.
História Humana: Passado, Presente e Futuro
As duas mais poderosas forças psicológicas na história humana
têm sido, sem dúvida, a violência e a ganância. A quantidade e o grau
de atrocidades que foram cometidos durante todas idades, nos vários
países do mundo - muitos deles em nome de Deus - são verdadeiramente
inimagináveis e indescritíveis. Podemos pensar aqui nos incontáveis
cristãos, sacrificados nas arenas romanas para prover um espetáculo
altamente procurado pelas massas; muitas centenas de milhares de vítimas
da inquisição medieval foram torturadas, mortas e queimadas nos autos-de-fé;
os massacres em massa nos altares de sacrifício dos Astecas; e os
milhões de soldados e civis mortos nas guerras e revoluções de todos
os tempos.
As hordas de Genghis Khan varreram a Ásia matando, saqueando e queimando
cidades e vilarejos; o exército de Alexandre, o Grande, conquistou
todos os países entre a Macedônia e a Índia; a impressionante propagação
do Islamismo, pela espada e pelo fogo; a expansão do império romano;
as Cruzadas; as aventuras de Cortez e de Pizarro; o colonialismo
da Grã-Bretanha e de outros países europeus; e as guerras Napoleônicas
- todos estes são exemplos de violência irrefreável e de ganância
insaciável.
Esta tendência tem continuado de forma não-mitigada no século XX.
Historicamente, mais povos foram mortos nos últimos cem anos do
que existiram desde o alvorecer da humanidade até o último século.
Um total de vinte milhões de homens e mulheres foi morto em campos
de batalha da II Guerra Mundial e um igual número, em conseqüência
das guerras, fora dos campos de batalha.
A expansão da Alemanha Nazista e os horrores do Holocausto, a dominação,
por Stalin, da Europa Oriental e seu Arquipélago Gulag, o terror
civil na China Comunista e as ditaduras Sul Americanas, as atrocidades
e genocídios cometidos pelos chineses no Tibet, as crueldades do
apartheid Sul Africano, as guerras na Coréia e Vietnam, e os recentes
derramamentos de sangue na Iugoslávia e Ruanda são apenas alguns
exemplos salientados, de massacres humanos sem sentido, que temos
testemunhado, durante os últimos cinqüenta anos.
A ganância humana também encontrou novas formas de expressão, menos
violentas, na filosofia e estratégia da economia capitalista, que
enfatiza o aumento do produto interno bruto, no "crescimento ilimitado",
na espoliação temerária de recursos naturais não-renováveis, no
consumo conspícuo e na "obsolescência planejada". Além disso, grande
parte dessa política econômica de consumo, que tem conseqüências
ecológicas desastrosas, tem sido orientada para a produção de armas
com poderes destrutivos cada vez maiores.
No passado, a violência e a ganância tinham conseqüências trágicas,
para os indivíduos envolvidos nos encontros destrutivos, assim como,
para suas famílias imediatas. Porém, elas não ameaçavam a evolução
da espécie humana como um todo e, certamente, não representavam
um perigo para o ecossistema e para a biosfera do planeta. Mesmo
após as guerras mais violentas, a natureza foi capaz de reciclar
as conseqüências e recuperar-se completamente em algumas décadas.
Essa situação mudou radicalmente no curso do século XX. O rápido
progresso tecnológico, o crescimento exponencial da produção industrial,
a maciça explosão populacional e, principalmente, a descoberta da
energia atômica modificaram para sempre as equações implicadas.
No curso desse século, testemunhamos mais descobertas científicas
e tecnológicas, em uma mesma década, ou, até mesmo, em um ano, do
que foram experienciados em todo um século, pelas pessoas dos períodos
históricos anteriores. Contudo, esses impressionantes sucessos intelectuais
levaram a humanidade moderna à beira de uma catástrofe global, já
que não foram igualados por um crescimento emocional e maturidade
moral compatíveis. Temos o privilégio dúbio de sermos a primeira
espécie na história natural a ter alcançado a capacidade de se erradicar
e, nesse processo, destruir toda a vida neste planeta.
A história intelectual da humanidade tem triunfos incríveis. Conseguimos
aprender os segredos da energia nuclear, enviar espaçonaves à lua
e todos os planetas do sistema solar, transmitir sons e imagens
coloridas para todo o globo e pelo espaço cósmico, romper o código
do DNA e começar a fazer experiências de clonagem e de engenharia
genética. Ao mesmo tempo, essas tecnologias superiores estão sendo
usadas a serviço de emoções primitivas e impulsos instintivos, que
não são muito diferentes daqueles que dirigiam o comportamento da
Idade da Pedra.
Quantias inimagináveis têm sido gastas na insanidade da corrida
armamentista e, até mesmo, o uso de uma fração minúscula do arsenal
atômico existente destruiria toda a vida, na face da terra. Dezenas
de milhões de pessoas foram mortas nas duas guerras mundiais e em
outros incontáveis confrontos violentos, que ocorreram por motivos
ideológicos, raciais, religiosos ou econômicos. Centenas de milhares
foram brutalmente torturadas pela polícia secreta de vários sistemas
totalitários. A ganância insaciável esta levando as pessoas à perseguição
frenética de lucros e aquisições de propriedades pessoais, além
de qualquer limite razoável. Essa estratégia resultou em uma situação
na qual, além do fantasma de uma guerra nuclear, a humanidade está
ameaçada por vários outros cenários do Juízo Final, sem espetáculo,
mas insidiosos e mais previsíveis.
Entre eles estão: a poluição industrial do solo, da água e do ar,
a ameaça de acidentes e lixo nucleares, a destruição da camada de
ozônio, o efeito estufa, a possível perda do oxigênio do planeta,
através do desmatamento temerário e do envenenamento do plâncton
oceânico e os perigos de aditivos tóxicos em nossa comida e bebida.
A isso, podemos acrescentar vários desenvolvimentos de natureza
menos apocalíptica, mas igualmente perturbadora, tais como a extinção
de espécies acontecendo em proporções astronômicas, a falta de moradia
e a fome de uma porcentagem significativa da população mundial,
a deterioração da família e crises de paternidade e maternidade,
o desaparecimento de valores espirituais, a falta de esperança e
perspectivas positivas a perda da conexão significativa com a natureza
e a alienação generalizada. Como resultado de todos os fatores acima,
a humanidade agora vive uma angústia crônica, à beira de uma catástrofe
nuclear e ecológica, enquanto possui uma tecnologia fabulosa, semelhante
ao mundo da ficção científica.
A ciência moderna desenvolveu eficazes meios, no mundo atual, que
poderiam resolver a maior parte dos problemas urgentes - combater
a maior parte das doenças, eliminar a fome e a pobreza, reduzir
a quantidade de lixo industrial e substituir os combustíveis fósseis
destrutivos por fontes de energia limpas e renováveis. Os problemas
que se interpõem não são de natureza econômica ou tecnológica: suas
fontes mais profundas encontram-se dentro da personalidade humana.
Por causa disso, recursos inimagináveis têm sido desperdiçados,
no absurdo da corrida armamentista, nas lutas por poder e na busca
de "crescimento ilimitado". Esse motivo também impede uma mais apropriada
distribuição de riqueza, entre indivíduos e nações, assim como uma
reorientação de preocupações puramente econômicas e políticas para
prioridades ecológicas, que são críticas para a continuidade da
vida no planeta.
Negociações diplomáticas, medidas administrativas e legais, sanções
econômicas e sociais, intervenções militares e outros esforços semelhantes
têm obtido muito pouco sucesso. Na realidade, eles freqüentemente
têm produzido mais problemas do que resolvido. Torna-se cada vez
mais claro porque estavam fadados ao fracasso. As estratégias usadas
para aliviar essa crise estão, desde o início, enraizadas na mesma
ideologia que a criou.Em última análise, a atual crise global é
basicamente de natureza psicoespiritual: ela reflete o nível de
evolução de consciência da espécie humana. É, portanto, difícil
imaginar que ela possa ser resolvida sem uma radical transformação
interna da humanidade, em larga escala, e sua elevação a um nível
mais alto de maturidade emocional e consciência espiritual.
A tarefa de instilar a humanidade com um conjunto de valores e objetivos
totalmente diferentes pode parecer demasiadamente irreal e utópica
para oferecer qualquer esperança real. Considerando o papel proeminente
da violência e da ganância na história da humanidade, a possibilidade
de transformar a humanidade moderna em uma espécie de indivíduos
capazes de coexistência pacífica com outros homens e mulheres sem
distinção de raça, cor, credo religioso ou convicção política, sem
falar nas outras espécies, certamente não parece muito plausível.
Estamos perante a necessidade de instilar a humanidade com profundos
valores éticos, sensibilidade às necessidades alheias, aceitação
voluntária da simplicidade e uma consciência aguda dos imperativos
ecológicos. À primeira vista, tal tarefa parece demasiado fantástica,
até mesmo para um filme de ficção científica.
Contudo, embora a situação seja séria e crítica, ela não é tão desalentadora
quanto pode parecer. Após mais de quarenta anos de estudos intensivos
de estados holotrópicos de consciência, cheguei à conclusão de que
os conceitos teóricos e as abordagens práticas, desenvolvidas pela
psicologia transpessoal, uma disciplina que está tentando integrar
a espiritualidade ao novo paradigma emergente na ciência ocidental,
podem ajudar a aliviar a crise, que estamos enfrentando. Eles estão
em total concordância com a sabedoria perene das grandes filosofias
espirituais do Leste e das tradições místicas do mundo.
As observações e insights dos campos da moderna pesquisa da consciência,
psicologia transpessoal e paradigma emergente que são relevantes
do ponto de vista da atual situação no mundo estão dentro das seguintes
cinco categorias:
- Desenvolvimento de uma nova imagem do universo e de um mais compreensivo
entendimento da natureza humana e da psique em lugar dos modelos
comportamentalista e Freudiano
- Nova compreensão das raízes da agressão maligna e da violência
humana
- Novos insights sobre a natureza da ganância insaciável
- Abordagens experienciais facilitando a transformação pessoal positiva
e a evolução da consciência
- Psicologia Transpessoal, pesquisa da consciência e crise global.
Nova Imagem do Universo, a Psique e a Natureza Humana
Em anos recentes, muitos autores ressaltaram que um fator significativo
para o desenvolvimento da crise global tem sido o paradigma newtoniano
cartesiano e o materialismo monístico, que têm dominado a ciência
ocidental, nos últimos trezentos anos. Ele retrata o universo como
um gigante, uma completa supermáquina determinista governada por leis
mecânicas e envolve uma forma de dicotomia entre mente e natureza.
A imagem do Cosmos, como um sistema mecânico, tem levado a acreditar
que pode ser adequadamente conhecido, através de sua dessecação, estudando
todas as suas partes.
Além disso, elevando a matéria como princípio mais importante do
cosmo, a ciência ocidental reduz a vida, a consciência e a inteligência
a serem seus subprodutos acidentais. Nesse contexto, os humanos
parecem ser nada mais do que animais altamente desenvolvidos. Isso
levou à aceitação do antagonismo, da competição e da darwiniana
"sobrevivência dos mais capazes", como princípios a governar a sociedade
humana. Mais que isso, a descrição da natureza como inconsciente
deu uma justificativa para a sua exploração pelos humanos, de acordo
com o programa tão eloqüentemente formulado por Francis Bacon.
A psicanálise pintou um quadro pessimista dos seres humanos, como
criaturas cujas forças motivadoras primárias são os instintos animais.
Segundo Freud, se não tivéssemos medo das repercussões sociais e
não fôssemos controlados pelo superego (proibições e regras paternas/maternas
internalizadas), mataríamos e roubaríamos indiscriminadamente, cometeríamos
incesto e nos envolveríamos, de modo desenfreado, em sexo promíscuo.
Essa imagem da natureza humana relegou conceitos tais como complementaridade,
sinergia, respeito mútuo e cooperação pacífica ao território de
estratégias oportunistas e temporárias ou ingênuas fantasias utópicas.
Não é difícil ver como esses conceitos e os sistemas de valores
a eles associados têm ajudado a criar a crise com a qual nos deparamos.
Contudo, durante os últimos vinte e cinco anos, desenvolvimentos
revolucionários na ciência ocidental têm trazido evidências convincentes
para uma compreensão radicalmente diferente do Cosmos, dos seres
humanos e da psique. Tem se tornado cada vez mais claro que a consciência
não é um produto dos processos fisiológicos no cérebro, mas sim
um atributo primário da existência. O universo é imbuído com inteligência
criativa, e a consciência está inextricavelmente entrelaçada em
sua textura. A moderna pesquisa da consciência tem mostrado que
a estrutura conceitual da psiquiatria tradicional e da psicologia
- a qual reduz a psique humana à biologia, à biografia pós-natal,
e ao inconsciente individual freudiano - é superficial, inadequada,
e incorreta.
Em estados incomuns de consciência - tais como meditação sistemática,
rituais xamânicos, experiências próximas da morte, sessões psicodélicas,
formas poderosas de psicoterapias experienciais tais como renascimento,
respiração holotrópica, terapia primal e crises psicoespirituais espontâneas
- a psique pode se estender muito além de limites estreitos. É possível
transcender a dinâmica do inconsciente dominada pelos instintos animais
e conectar aos domínios transpessoais. Em última análise, a psique
individual de cada um de nós está comensurada com a totalidade da
existência; a natureza mais profunda da humanidade não é animal, mas
divina. Essa compreensão da existência provê uma base natural para
reverência da vida, cooperação e sinergia, no que diz respeito à humanidade
e ao planeta como um todo e consciência ecológica profunda.
Nova Compreensão das Raízes da Agressão Maligna e da Violência Humana
Os modernos estudos do comportamento agressivo começaram com as descobertas
no campo da evolução, feitas por Charles Darwin (1859/1952), que marcaram
época, nos meados do século passado. As tentativas de explicar a agressividade
humana, a partir de nossa origem animal, geraram conceitos teóricos
tais como a imagem do "macaco nu", de Desmond Morris (1967), a idéia
do "imperativo territorial", de Ardrey (1961), o "cérebro triuno",
de Paul MacLean (1973) e as explicações biossociológicas, que interpretam
a agressividade em termos de estratégias genéticas dos "genes egoístas",
de Richard Dawkins (1976). Modelos mais refinados sobre o comportamento,
desenvolvidos por pioneiros em etologia, como Konrad Lorenz (1963),
Nikolaas Tinbergen (1965) e outros - complementaram a ênfase mecânica
nos instintos, através de estudos de elementos ritualísticos e motivacionais.
Quaisquer teorias sugerindo, que a tendência humana à violência
simplesmente reflete a nossa origem animal, são inadequadas e não
convencem. Os animais se mostram agressivos quando têm fome, defendem
seu território ou competem por sexo. A violência mostrada pelos
humanos, à qual Erick Fromm (1973) denominou "agressão maligna",
não encontra paralelos no reino animal. A concepção de que a agressão
humana não pode ser adequadamente explicada, como resultante da
evolução filogenética, levou à formulação de teorias psicodinâmicas
e psico-sociais que consideram uma parte significativa da agressão
humana como um fenômeno, que foi aprendido. Essa tendência teórica
começou no fim dos anos 30, com a monografia "Frustração e Agressão",
por Dollard e Miller (1939).
As teorias psicodinâmicas tentam explicar a agressão, especificamente
humana, como uma reação a frustrações, abuso e falta de amor na
infância. Contudo, explicações deste tipo falham penosamente em
explicar as formas extremas de violência individual (tais como os
assassinatos em série do Estrangulador de Boston, crimes seriais
do tipo de Geoffrey Dahmer ou o do homem da arma branca do Texas),
crimes cometidos por gangues e grupos criminosos (como o assassinato
de Sharon Tate ou os levantes nas prisões) e, particularmente, os
fenômenos de sociedade de massa como o nazismo, comunismo, guerras
sanguinárias, revoluções, genocídios e campos de concentração.
Nas últimas décadas, a pesquisa psicodélica e as psicoterapias experienciais
profundas puderam jogar muita luz no problema da agressividade humana.
Esse trabalho revelou que as raízes deste aspecto problemático e perigoso
da natureza humana são muito mais profundas e formidáveis do que a
psicologia jamais imaginou. Contudo, esse trabalho também descobriu
abordagens extremamente eficazes, que têm o potencial de neutralizar
e transformar esses elementos violentos na personalidade humana. Além
disso, essas observações indicam que a agressão maligna não reflete
a verdadeira natureza humana. Ela está conectada em um domínio de
dinâmica inconsciente, que nos separa de nossa identidade mais profunda.
Quando alcançamos os reinos transpessoais, que estão além dessa camada,
tomamos consciência que nossa natureza real é divina ao invés de bestial.
Esta descoberta é completamente congruente com a compreensão descrita
nos antigos Upanishads indiano, através da frase "Tat tvam asi" (Thou art That) - significando que, em última análise, cada um de
nós é idêntico ao princípio criativo do universo.
Fontes Perinatais da Violência
Não há dúvida de que a agressão maligna está conectada em traumas
e frustrações na infância.Contudo, a moderna pesquisa da consciência
tem revelado adicionais e significativas raízes da violência humana
nos recônditos profundos da psique que estão além da biografia pós-natal
e que estão relacionadas ao trauma do nascimento biológico. A emergência
vital, dor e sufocação experimentadas por muitas horas, durante o
nascimento biológico, geram enormes quantidades de ansiedade e agressão
assassina que ficam alojadas no organismo. Como vimos anteriormente,
reviver o nascimento, em várias formas de psicoterapia experiencial,
não apenas envolve a reprodução concreta das emoções e sensações originais,
mas também é tipicamente associada a várias experiências do inconsciente
coletivo retratando cenas de violência inimagináveis. Entre elas encontram-se
seqüências que representam guerras, revoluções, levantes raciais,
campos de concentração, totalitarismo e genocídio.
Essa emergência espontânea, dos temas sociopolíticos e insights,
durante o processo perinatal, tornou possível fazer muitas conclusões
específicas, sobre a dinâmica psicológica envolvida. Naturalmente,
as guerras e revoluções são fenômenos extremamente complexos com
dimensões históricas, econômicas, políticas, religiosas e outras.
A intenção aqui não é a de oferecer uma explicação reducionista,
substituindo todas as outras, mas sim adicionar alguns novos insights,
relativos às dimensões psicológicas espirituais dessas formas de
psicopatologia social, que têm sido negligenciadas ou que só receberam
um tratamento superficial pelas teorias anteriores.
As imagens de violentos eventos sociopolíticos, que acompanham o
reviver do nascimento biológico, tendem a surgir em estreita conexão
específica com os estágios consecutivos do processo de nascimento.
Esses estágios distintos do processo de nascimento eu denominei matrizes perinatais básicas, MPBs, de forma abreviada. Quando
revivemos episódios da existência intra-uterina imperturbada (um
exemplo de experiência de Matriz Perinatal Básica I, ou MPB
I), tipicamente experienciamos imagens de sociedades humanas
com uma estrutura social ideal, culturas que vivem em total harmonia
com a natureza (e.g., prístinas Ilhas Polinesianas) ou futuras sociedades
utópicas, nas quais todos os grandes conflitos já foram solucionados.
Memórias intra-uterinas perturbadoras (útero tóxico, aborto natural
iminente ou tentativa de aborto) são acompanhadas por imagens de
grupos humanos vivendo em áreas industriais, onde a natureza está
poluída e estragada ou em territórios com uma ordem social insidiosa
e paranóia generalizada.
Experiências regressivas relacionadas ao primeiro estágio clínico
do nascimento (em minha terminologia, MPB I), durante o
qual o útero contrai-se periodicamente, mas o seu colo ainda não
está aberto, apresentam um quadro diametralmente diferente. Elas
retratam sociedades opressivas e totalitárias, com fronteiras fechadas,
vitimando suas populações e "asfixiando" a liberdade pessoal (Rússia
czarista ou comunista, o Terceiro Reich de Hitler, as ditaduras
na América do Sul e apartheid da África) ou trazem imagens específicas
de prisioneiros dos campos de concentração nazistas e do Arquipélago
de Gulag, de Stalin. Quando experienciamos essas cenas infernais,
identificamo-nos exclusivamente com as vítimas e sentimos uma profunda
empatia pelos oprimidos e injustiçados.
As experiências que acompanham o reviver do segundo estágio clínico
do parto (MPB III), quando o colo do útero está dilatado
e as contrações contínuas propulsionam o feto, através da passagem
estreita do canal de parto, retratam uma rica panóplia de cenas
violentas - guerras e revoluções sanguinolentas, matanças de humanos
ou animais, mutilações, abusos sexuais e assassinatos. Essas cenas
costumam conter elementos demoníacos e temas escatológicos repulsivos.
Outras concomitâncias freqüentes são as visões de cidades em chamas,
lançamento de foguetes e explosões de bombas nucleares. Nestas,
não ficamos limitados ao papel de vítimas, mas participamos dos
três papéis - o de vítima, de agressor e o de um observador emocionalmente
envolvido.
Os eventos que caracterizam o terceiro estágio clínico do parto
(MPB IV) - o momento do parto em si e da separação da mãe,
são tipicamente acompanhados por imagens de vitória em guerras e
revoluções, liberação de prisioneiro e sucesso de esforços coletivos,
tais como movimentos patrióticos ou nacionalistas. Nesse momento,
também podemos experienciar visões de celebrações ou paradas triunfais
ou de animadas reconstruções de pós-guerra.
Em 1975, apresentei essas observações, ligando os levantes sociopolíticos
aos estágios do nascimento biológico, em Realms of the Human Unconscious
(Grof, 1975). Logo após essa publicação, recebi uma carta de Lloyd
de Mause, um psicanalista e jornalista de Nova Iorque. De Mause
é um pioneiro no campo da psicohistória, uma disciplina que aplica
as descobertas da psicologia profunda à história e à ciência política.
Os psicohistoriadores estudam questões tais como a relação entre
a história infantil dos líderes políticos e seus sistemas de valores
e processos de tomada de decisões ou a influência das práticas de
educação infantil sobre a natureza das revoluções, daquele período
histórico específico. Lloyd de Mause ficou muito interessado em
minhas descobertas relativas ao trauma de nascimento e suas possíveis
implicações sociopolíticas, porque elas forneciam um apoio independente
para sua própria pesquisa. De Mause vinha estudando, há algum tempo,
os aspectos psicológicos dos períodos que precediam guerras e revoluções.
Ele pesquisava como os líderes militares conseguiam mobilizar massas
de civis pacíficos e as transformava, praticamente da noite para
o dia, em máquinas mortíferas. Sua abordagem desse problema foi
muito original e criativa. Além da análise tradicional das fontes
históricas, ele coletou dados, de grande importância psicológica,
de caricaturas, piadas, sonhos, imagens pessoais, lapsos de fala,
comentários laterais de palestrantes e até mesmo de rabiscos em
rascunhos de documentos políticos. Quando entrou em contato comigo,
ele já havia analisado, dessa forma, dezessete situações das quais
precederam o início de guerras e levantes revolucionários, abrangendo
vários séculos, desde a antiguidade até o presente.
Ele ficou impressionado pela extraordinária abundância de figuras
retóricas, metáforas e imagens relacionadas ao nascimento biológico
que encontrou nesse material (de Mause, 1975). Líderes militares
e políticos de todas as épocas, referindo-se a uma situação crítica
ou declarando guerra, tipicamente usavam termos que descrevem vários
aspectos da angústia perinatal. Eles acusavam o inimigo de asfixiar
e estrangular seu povo, de tirar o último ar de seus pulmões ou
confiná-los e não lhes dar espaço suficiente para viver ("Lebensraum"
de Hitler). De igual freqüência eram as alusões a cavernas escuras,
túneis e labirintos confusos, abismos perigosos para dentro dos
quais podiam ser empurrados e a ameaça de ser engolfado pela traiçoeira
areia movediça ou por um redemoinho aterrador. De maneira semelhante,
a oferta de resolução da crise surge na forma de imagens perinatais.
O líder promete salvar sua nação de um traiçoeiro labirinto, de
guiá-la à luz do outro lado do túnel e criar uma situação na qual
o agressor e opressor perigosos serão dominados e todos poderão
respirar livremente de novo.
Na época, os exemplos históricos de Lloyd de Mause incluíam personagens
como Alexandre - o Grande, Napoleão, Samuel Adams, o Kaiser Guilherme
II, Hitler, Khrushchev e Kennedy. Samuel Adams, falando sobre a
Revolução Americana, referiu-se a "o filho da independência lutando
para nascer". Em 1914, o Kaiser Guilherme declarou que "a monarquia
foi pega pela garganta e forçada a escolher entre deixar-se estrangular
e fazer um último esforço para sair do fosso e defender-se do ataque".
Durante a crise dos mísseis em Cuba, Krushchev escreveu para Kennedy,
rogando que as duas nações não "se debatessem como toupeiras cegas
lutando até a morte dentro de um túnel". Mais explícita ainda, foi
a mensagem codificada usada pelo embaixador japonês, Kurusu, quando
telefonou para Tóquio para dizer que as negociações com Roosevelt
foram interrompidas e que se podia ir avante com o bombardeio sobre
Pearl Arbor. Ele anunciou que "o nascimento da criança era iminente"
e perguntou como estavam as coisas no Japão: "Parece que a criança
pode nascer?". A resposta foi: "Sim, o nascimento da criança parece
iminente". Curiosamente, a inteligência norte-americana que a interceptou,
reconheceu o significado do código de "guerra-como-nascimento".
Particularmente enregelante foi o uso da linguagem perinatal em
conexão com a explosão da bomba atômica em Hiroshima. O avião recebeu
o nome da mãe do piloto, Enola Gay, a bomba levava pintado em si
o apelido "O Menininho" e a mensagem combinada, a ser mandada para
Washington como sinal da explosão bem-sucedida foi "O bebê nasceu".
Não seria nenhum exagero ver a imagem de um recém-nascido também
atrás do apelido da bomba de Nagasaki, "Homem Gordo".
Desde a época de nossa correspondência, Lloyd de Mause juntou muitos
outros exemplos históricos e refinou sua tese de que a memória do
trauma de nascimento desempenha um importante papel, como fonte
de motivação, para a atividade social violenta.(veja, e.g., de Mause,
1982, 1996).
As questões relacionadas à guerra nuclear são de tamanha relevância,
que eu gostaria de discorrer sobre elas, usando as informações de
um artigo fascinante, da autoria de Carol Cohn (1987), intitulado
"Sex and death in the rational world of defense intellectuals".
Os intelectuais da defesa são civis, que entram e saem do governo,
às vezes trabalhando como funcionários administrativos ou consultores,
e, às vezes, em universidades e institutos de pesquisa para desenvolvimento
de guerra. Eles criam as teorias, que informam e legitimam a prática
estratégica nuclear dos Estados Unidos - como gerenciar a corrida
armamentista, como embargar o uso de armas nucleares, como travar
uma guerra nuclear se o embargo falhar e como explicar porque não
é seguro viver sem armas nucleares.
Carol Cohn participou de um seminário de verão, de duas semanas,
sobre armas nucleares, doutrina de estratégia nuclear e controle
de armamentos. Ela ficou tão fascinada com o que viu e ouviu, que
passou o ano seguinte imersa em um mundo quase totalmente masculino
de intelectuais de defesa (com exceção das secretárias). Ela coletou
alguns dados extremamente interessantes, confirmando a dimensão
perinatal da guerra nuclear. Em sua própria terminologia, esse material
confirma a importância do tema do "nascimento masculino" e da "criação
masculina" como importantes forças psicológicas que subjazem à psicologia
da guerra nuclear. Ela usa os exemplos históricos a seguir para
ilustrar seu ponto de vista.
Em 1942, Ernest Lawrence mandou um telegrama para um grupo de físicos,
que desenvolviam uma bomba nuclear em Chicago, que dizia: "Parabéns
aos novos pais. Mal posso esperar para ver o recém-chegado". Em
Los Alamos, a bomba atômica foi chamada de "bebê de Oppenheimer".
Richard Feynman escreveu, em seu artigo "Los Alamos por dentro",
que recebeu um telegrama, quando estava em licença temporária, após
a morte de sua esposa, que dizia: "Esperamos o bebê para o dia tal".
Nos laboratórios Lawrence Livermore, a bomba de hidrogênio foi chamada
de "Bebê do Teller", embora aqueles que queriam depreciar a contribuição
de Edward Teler dissessem que ele não era o pai da bomba, mas sim
a mãe. Eles reivindicavam, que Stanislaw Ulam era o pai real, pois
ele teve todas as idéias importantes e "a concebeu" e Teler apenas
"carregou-a" depois disso. Termos relacionados à maternidade também
foram usados para a "nutrição" - a manutenção dos mísseis.
O general Grove enviou uma triunfal mensagem telegráfica codificada
para o secretário de guerra Henry Stimson, na conferência de Potsdam,
relatando o sucesso do primeiro teste atômico: "Doutor acaba de
voltar entusiasmado e confiante que o menininho seja tão potente
quanto seu irmão mais velho. A luz em seus olhos, discernível daqui
até Highhold e eu poderia ter escutado seus gritos, daqui até minha
fazenda". Stimson, por sua vez, informou Churchill, escrevendo-lhe
um bilhete que dizia: "Bebês nasceram satisfatoriamente".
William L. Lawrence testemunhou o teste da primeira bomba atômica
e escreveu: "A grande explosão aconteceu cerca de cem segundos depois
do primeiro clarão - o primeiro grito de um mundo recém-nascido".
O jubiloso telegrama de Edward Teller anunciando o sucesso do teste
com a bomba de hidrogênio "Mike", para Los Alamos, no atol de Eniwetok
das ilhas de Marshall, dizia: "É um menino". Cientistas do sexo
masculino fizeram nascer uma cria com o poder supremo de dominação
sobre a natureza feminina.
O simbolismo do "Menininho", de Enola Gay e o "O bebê nasceu", da
bomba de Hiroshima, e o simbolismo do "Homem Gordo", da bomba de
Nagasaki já foram mencionados anteriormente.
Carol Cohn também menciona, em seu trabalho, a abundância de simbolismo
claramente sexual, na linguagem dos intelectuais da defesa. A natureza
desse material, ligando sexo a agressão, dominação e exibição escatológica,
demonstra uma profunda semelhança com as imagens, que ocorrem no
contexto das experiências do nascimento (terceira MPB). Cohn usou
os seguintes exemplos: a dependência norte-americana de armas nucleares
foi explicada como irresistível, porque "você ganha mais explosão
pelo seu dinheiro". A explicação de um professor do porque se deveria
colocar os mísseis MX nos silos dos mísseis Minuteman mais novos,
em substituição aos antigos e menos exatos: "Você não vai pegar
seu melhor míssil e enfiá-lo em um buraco qualquer". Em dado momento,
houve uma séria preocupação de que "Temos que endurecer nossos mísseis,
porque os dos russos são um pouco mais duros". Um consultor militar
do Conselho de Segurança Nacional fez uma referência a "soltar setenta
a oitenta por cento da nossa megatonelagem em uma explosão orgástica".
As palestras eram plenas, em termos, como lançadores eretos e verticais,
proporções impulso-peso, assentamento suave, penetração profunda
e as vantagens comparativas, entre ataques prolongados versus espasmódicos.
Outro exemplo era o popular costume dos visitantes, dos submarinos
nucleares, acariciarem os mísseis, visto por Carol Cohn como uma
expressão da supremacia fálica e das tendências homo-eróticas. A
vista desse material, fica claro ser bastante apropriado que críticas
feministas da política nuclear falem de "inveja do míssil" e "veneração
fálica".
Suportes adicionais do papel central do domínio perinatal do inconsciente
na psicologia da guerra podem ser encontrados no excelente livro
de Sam Keen, "The faces of the enemy" (As faces do inimigo - Keen,
1988). Keen juntou uma impressionante coleção de distorcidos e tendenciosos
pôsteres, quadrinhos de propaganda e caricaturas de guerra, de vários
países e períodos históricos. Ele demonstrou, que o meio usado para
retratar e descrever o inimigo, durante uma guerra ou revolução,
é um estereótipo, que apresenta variações mínimas e tem muito pouco
haver com as características verdadeiras dos países e culturas em
jogo.
Ele dividiu essas imagens em várias categorias arquetípicas, de
acordo com as características prevalecentes (e.g., estranho, agressor,
oponente respeitável, sem cara, inimigo de Deus, bárbaro, ganancioso,
criminoso, torturados, estuprador, morte). De acordo com Keen, as
imagens atribuídas ao inimigo são essencialmente projeções dos aspectos
da sombra, que são reprimidos e não reconhecidos, ou seja, do nosso
próprio inconsciente. Embora possamos encontrar guerras justas na
história, aqueles que iniciam as atividades guerreiras estão tipicamente
substituindo, por alvos externos, os elementos de suas próprias
psiques, que deveriam ser encarados adequadamente na auto-exploração
pessoal.
A estrutura teórica de Sam Keen não inclui especificamente o domínio
perinatal do inconsciente. Contudo, a análise do material pictográfico
por ele coletado revela uma preponderância de imagens simbólicas,
características da segunda e terceira MPBs. É típico que o inimigo
seja retratado como um povo perigoso, um dragão malvado, uma hidra
com várias cabeças, uma gigantesca tarântula venenosa ou um leviatã
devorador. Outros símbolos utilizados com freqüência são os de felinos
ou pássaros predadores, tubarões monstruosos e cobras malignas,
principalmente as víboras e constritoras. Cenas retratando estrangulamento
ou esmagamento, redemoinhos gigantesco e areias movediças traiçoeiras
também são abundantes nas imagens, que retratam os tempos de guerra,
revoluções e crises políticas. A justaposição das imagens, oriundas
dos estados holotrópicos de consciência, que retratam experiências
perinatais, com a documentação histórico-pictográfica coletada por
LLoyd de Mause e San Keen, representa uma forte evidência de raízes
perinatais na violência humana.
Segundo os novos insights, fornecidos conjuntamente por observações
da pesquisa de consciência e pelas descobertas da psicohistória,
todos nós carregamos poderosas energias e emoções associadas ao
trauma de nascimento, no inconsciente profundo, que não conseguimos
dominar e assimilar adequadamente. Para alguns de nós, esse aspecto
de nossa psique pode ser totalmente inconsciente até e a não ser
que embarquemos em algum tipo de auto-exploração profunda, com o
uso de psicodélicos, ou poderosas técnicas experienciais de psicoterapia,
tal como a respiração holotrópica ou o renascimento. Outros podem
ter graus variados de percepção das emoções e sensações físicas
armazenadas no nível perinatal do inconsciente.
A ativação desse material pode levar a graves psicopatologias individuais,
inclusive à violência sem motivo. Parece que, por causas desconhecidas,
a interferência dos elementos perinatais pode aumentar, simultaneamente,
em grande número de pessoas. Isso cria então uma atmosfera generalizada
de tensão, ansiedade e antecipação. O líder é um indivíduo que está
sob uma influência mais forte das energias perinatais do que uma
pessoa comum. Ele também tem a habilidade de repudiar seus sentimentos
inaceitáveis (a Sombra na terminologia de Jung) e de projetá-los
em uma situação externa. Culpam o inimigo pelo desconforto coletivo
e oferecem uma intervenção militar como solução.
A guerra oferece uma oportunidade para superar as defesas psicológicas,
que normalmente mantêm as tendências perinatais perigosas em cheque.
O superego Freudiano, uma força psicológica que exige restrição
e comportamento civilizado, é substituído pelo "superego da guerra":
Nós agora recebemos elogios e medalhas pelos mesmos comportamentos
que são inaceitáveis e passíveis de punição em tempos de paz - assassinato,
destruição indiscriminada e pilhagem. Quando a guerra irrompe, os
impulsos perinatais destrutivos e autodestrutivos são representados
livremente. Os temas, que costumamos encontrar em determinado estágio
do processo de investigação interna e transformação (segunda e terceira
MPBs), passam, então, a fazer parte de nossa vida diária, seja de
forma direta ou na forma de noticiário da tevê. Várias situações
sem saída - orgias sadomasoquistas, violência sexual, comportamento
bestial e demoníaco, desencadeamento de enormes energias explosivas
e escatologia - que pertencem às imagens perinatais padrão - todas
elas são vivenciadas em guerras e revoluções, com extraordinária
vivacidade e força.
Contudo, liberar os impulsos inconscientes de violência, seja em
escala individual ou coletiva, durante guerras e revoluções não
resulta em transformação, como sua plena experiência consciente
faria, já que o insight e sua intenção terapêutica estão desaparecidos.
Assim, o objetivo da fantasia de nascimento subjacente, que representa
a mais profunda força motivadora desses eventos tão violentos, não
é atingido, mesmo que a guerra ou revolução seja um sucesso. Nem
mesmo a vitória externa mais triunfante proporciona aquilo que era
esperado e almejado - uma sensação interna de liberação emocional
e renascimento espiritual. Após os sentimentos iniciais de triunfo
intoxicante, vem um sóbrio despertar e a seguir uma frustração amarga.
E, normalmente, não demora muito para um fac-símile, do antigo sistema
opressor, começar a emergir das ruínas do sonho morto, já que as
mesmas forças inconsciente continuam a operar no profundo inconsciente.
Isso parece acontecer repetidas vezes na história humana, em eventos
sejam eles a Revolução Francesa, a Revolução Bolchevista da Rússia
ou a II Guerra Mundial.
Como conduzi trabalhos experienciais profundos, durante muitos anos,
em Praga, na época em que a Checoslováquia tinha um regime Marxista,
pude coletar fascinantes materiais, relativos às dinâmicas psicológicas
do comunismo. Tipicamente, as questões, ligadas à ideologia comunista,
emergiam no tratamento dos meus clientes, na época em que estes
estavam lutando com energias e emoções perinatais. Logo se tornou
óbvio que a paixão, que os revolucionários sentem por opressores
e seus regimes, recebe um reforço poderoso de sua revolta contra
a prisão interna de suas memórias perinatais. E, inversamente, a
necessidade de coagir e dominar os outros é um deslocamento externo
da necessidade de superar o medo de ser oprimido pelo próprio inconsciente.
O enredo assassino do opressor e do revolucionário é, então, uma
réplica externalizada da situação experienciada dentro do canal
de parto.
A visão comunista contém um elemento, de verdade psicológica, que
a torna atraente para um grande número de pessoas. A noção básica
de que uma violenta experiência de natureza revolucionária é necessária
para acabar com o sofrimento e a opressão e instituir uma situação
de maior harmonia é correta, quando entendida como um processo de
transformação interna. Contudo ela é perigosamente falsa quando
projetada no mundo externo como uma ideologia política de revoluções
violentas. A falácia está no fato de o que é, essencialmente e,
em um nível mais profundo, um padrão arquetípico de morte e renascimento
espiritual toma a forma de um programa ateísta e antiespiritual.
As revoluções comunistas têm sido extremamente bem-sucedidas em
sua fase destrutiva, mas, ao invés da irmandade e harmonia prometidas,
suas vitórias têm gerado regimes nos quais a opressão, a crueldade
e a injustiça reinam com supremacia. Hoje, quando a União Soviética,
economicamente arruinada e politicamente corrupta, está em colapso
e o mundo comunista foi desmantelado, é óbvio, para todas as pessoas
de julgamento sadio, que esse gigantesco experimento histórico,
conduzido às custas de milhões de vidas humanas e sofrimentos humanos
inimagináveis, foi um fracasso colossal. Se as observações acima
são corretas, nenhuma intervenção externa tem chance de criar um
mundo melhor, a não ser que esteja associada a uma profunda transformação
da consciência humana.
As observações da moderna pesquisa de consciência também lançam
uma luz importante sobre a psicologia nos campos de concentração.
Há vários anos o professor Bastians, de Leyden, Holanda, vem conduzindo
terapia de LSD para pessoas que sofrem da síndrome de campo de
concentração, uma condição desenvolvida, anos mais tarde, em
pessoas que foram prisioneiras nesses campos. Bastians também tem
trabalhado com os ex-kapos em suas questões de culpa profunda. Uma
descrição artística desse trabalho pode ser encontrada no livro Shivitti, escrito por um ex-recluso, Ka-Tzetnik 135633 (1989),
que passou por uma série de sessões terapêuticas, com Bastians .
O próprio Bastians (1955) preparou um texto, descrevendo seu trabalho,
intitulado "O homem no campo de concentração e o campo de concentração
no homem". Nele, ressaltou, sem especificar, que os campos de concentração
são uma projeção de um certo domínio, que existe no inconsciente
humano: "Antes de haver um homem em um campo de concentração, havia
um campo de concentração no homem" (Bastians, 1955). O estudo dos
estados holotrópicos de consciência possibilita a identificação
do domínio da psique, ao qual Bastians se refere. Um exame mais
próximo, das condições gerais e específicas nos campos de concentração
nazistas, revela que eles são uma representação diabólica e realista
da atmosfera de pesadelo, que caracteriza o reviver do nascimento
biológico.
As cercas de arame farpado, grade de alta voltagem, torres de observação
com submetralhadoras, campos minados e matilhas de cães bem treinados,
sem dúvida, criavam uma imagem infernal, quase arquetípica, de uma
opressiva situação sem saída e sem esperança, muito característica
do primeiro estágio clínico do nascimento (II MPB). Ao mesmo tempo,
os elementos de violência, bestialidade, escatologia e abuso sexual
de homens e mulheres, incluindo estupro e práticas de sadismo, pertencem
todos à fenomenologia do segundo estágio do nascimento (III MPB),
familiar àquelas pessoas que reviveram seu nascimento.
O abuso sexual existia em nível esporádico e individual, assim como
no contexto das "casas de bonecas", instituições que ofereciam "entretenimento"
para os oficiais. A única escapatória para esse inferno era a morte
- por uma bala, pela fome, doenças ou asfixia nas câmeras de gás.
Os livros escritos por Ka-Tzetnik 135633, "House of Dolls" (Casa
de bonecas) (1955) e "Sunrise over hell" (Alvorada no inferno) (1977),
oferecem uma descrição estarrecedora da vida nos campos de concentração.
A bestialidade da SS parecia focalizar-se principalmente em mulheres
grávidas. A natureza irracional dos campos é melhor vista nas dimensões
escatológicas - jogavam pratos dentro das latrinas e pediam para
serem limpos e forçavam os internos a urinarem dentro da boca dos
companheiros, práticas que, além de sua bestialidade, traziam o
perigo de epidemias (em Buchenwald, em um mês, vinte e um internos
ficavam em fezes).
A natureza intensa, profunda e convincente de todas as experiências
de violência coletiva, associadas ao processo perinatal, sugere
que elas não são fabricadas individualmente, a partir de fontes
como livros de aventuras, filmes e shows de tevê, mas têm origem
no inconsciente coletivo. Certamente, parece que quando, em nossa
exploração interna, acessamos a memória do trauma do nascimento,
tal fato parece abrir os portões para o inconsciente coletivo, mediando
acessos a experiência de pessoas, que uma vez tiveram situações
difíceis similares. Não é difícil imaginar que o nível perinatal
de nosso inconsciente, o qual "conhece" tão intimamente a história
da violência humana, é, atualmente, parcialmente responsável pelas
guerras, revoluções e atrocidades similares. Se isto é verdadeiro,
deveria ser possível reduzir o montante de agressão maligna por
uma mudança na prática do nascimento.
O papel do trauma de nascimento, como fonte de violência e tendências
autodestrutivas, tem sido confirmado por estudos clínicos. Parece
haver uma importante correlação entre a dificuldade do nascimento
e a criminalidade. Os dados sugerem que uma infância traumática,
em si e por si própria, não é suficiente para produzir comportamento
criminoso, em anos posteriores. Para ser um fator significante nessa
consideração, a traumatização pós-natal, tal como a separação da
mãe, tem que ser precedido por um nascimento complicado. Também,
a agressão voltada para dentro, particularmente, o suicídio, parece
estar psicogeneticamente ligado à dificuldade do nascimento. De
acordo com um recente artigo publicado no Lancet, a ressuscitação
no nascimento é condutora, ao mais alto risco, de cometimento de
suicídio, após a puberdade. O pesquisador escandinavo Bertil Jacobsen
encontrou uma estreita relação entre a forma do comportamento autodestrutivo
e a natureza do nascimento (Jacobsen e outros, 1987). Suicidas,
envolvendo asfixia, foram associados com sufocação no nascimento;
suicídios violentos, com traumas mecânicos no nascimento; e os droga
adictos liderando em suicídios, com opiáceos e ou administração
de barbitúricos, durante o trabalho.
As circunstâncias do nascimento desempenham um importante papel na
criação de uma predisposição para a violência e tendências autodestrutivas
ou inversamente, para o comportamento amoroso e relações interpessoais
saudáveis. O obstetra francês Michel Odent (1995) demonstrou como
os hormônios envolvidos no processo de nascimento e na amamentação
(ocitocina, endorfina, adrenalina, noradrenalina e prolactina) participam
dessa impregnação. Enquanto a ocitocina é conhecida por induzir o
comportamento maternal em animais e as endorfinas promovem dependência
e apego, os mecanismos da adrenalina desempenham um importante papel
na evolução como mediadores do instinto protetor da agressividade
da mãe, no momento em que o nascimento está ocorrendo, no meio sem
proteção natural. Sob as presentes circunstâncias, não deveria ser
difícil providenciar para o nascimento um quieto, salvo e privado
meio que conduz a uma impressão interpessoal positiva. O ocupado,
barulhento e caótico meio de muitos hospitais interferem com esse
processo, induzem ansiedade e retratam um mundo, que é potencialmente
perigoso e requer respostas agressivas.
Origens Transpessoais da Violência
O material acima demonstra que uma estrutura conceitual limitada à
biografia pós-natal e ao inconsciente freudiano não explica adequadamente
as formas extremas da agressividade humana, em escala individual e
coletiva. Contudo, parece que as raízes da violência humana têm um
alcance que vai além do nível perinatal da psique. A pesquisa da consciência
tem revelado outras significativas fontes de agressão no domínio transpessoal,
tais como figuras arquetípicas de demônios e deidades coléricas, complexos
temas mitológicos destrutivos e memórias de abuso físico e emocional
de vidas passadas.
C.G.Jung acreditava que os arquétipos do inconsciente coletivo tinham
poderosa influência, não apenas sobre o comportamento dos indivíduos,
mas também sobre os acontecimentos da história humana. Desse ponto
de vista, nações e culturas inteiras podem estar encenando importantes
temas mitológicos, em seu comportamento. Na década anterior à irrupção
da Segunda Guerra Mundial, Jung descobriu nos sonhos de seus pacientes
alemães muitos elementos do mito nórdico de Ragnarok ou o crepúsculo
dos deuses. Com base nessas observações, ele conclui que esse arquétipo
estava emergindo na psique coletiva na nação germânica, que levaria
a uma grande catástrofe que, no final, seria autodestrutiva.
Em várias circunstâncias, os líderes das nações fazem uso específico
não só de imagens perinatais, como também de imagens arquetípicas
e simbolismo espiritual, para atingir seus objetivos políticos.
Foi pedido aos cruzados medievais que sacrificassem suas vidas por
Jesus na guerra, que iria recuperar a Terra Santa dos maometanos.
Adolf Hitler explorou os temas mitológicos da supremacia da raça
nórdica e do império milenar, assim como os clássicos símbolos védicos
da suástica e da águia solar. O aiatolá Khomeini e Saddam Hussein
atiçaram a imaginação dos seus seguidores muçulmanos, através de
referências ao jihad, a guerra santa contra os infiéis.
É interessante mencionar, nesse contexto, as observações de Carol
Cohn sobre o simbolismo espiritual e imaginário religioso associado
à linguagem do arsenal e da doutrina nuclear. A partir de sua perspectiva
feminista, Cohn encarou isso como um esforço dos homens cientistas
para reivindicar o poder criativo máximo e se apropriar dele. Os autores
da doutrina estratégica referem-se aos membros de sua comunidade como
"irmandade nuclear". O primeiro teste atômico foi denominado Trindade
- a união de Pai, Filho e Espírito Santo, as forças masculinas da
criação. Os cientistas que trabalharam na bomba atômica e testemunharam
o teste descreveram-no da seguinte maneira: "Era como se estivéssemos
no primeiro dia da criação". E Robert Oppenheimer pensou nas palavras
de Krishna para Arjuna no Bhagavad Gita: "Tornei-me a Morte,
a Destruidora dos Mundos".
Novos Insights dentro da Natureza da Ganância Insaciável
A interpretação psicanalítica da insaciável necessidade humana
de obter, possuir e tornar-se mais do que se é atribui essa força
psicológica à sublimação dos instintos inferiores. Segundo Freud (1955),
"O que parece ser ... um impulso incansável em direção à perfeição
pode facilmente ser compreendido como o resultado da repressão dos
instintos, sobre a qual se baseia o que há de mais precioso na civilização
humana. O instinto reprimido nunca pára de se esforçar pela satisfação
total, que consistiria na repetição da experiência primária de satisfação.
Nenhuma formação substituta ou reativa e nenhuma sublimação são
suficientes para remover a persistente tensão do instinto reprimido".
Mais especificamente, a ganância é interpretada como um fenômeno relacionado
aos distúrbios na amamentação. A frustração oral ou a causa do excesso
da fixação oral e as necessidades da infância primitiva para comer
- objetos incorporados oralmente - se estende na vida adulta para
uma variedade de outros objetos e situações. A moderna pesquisa da
consciência percebe essas interpretações como superficiais e inadequadas
e encontrou origens perinatal e transpessoal adicionais, da cobiça
e da ganância.
Fontes Perinatais da Ganância
No decurso da psicoterapia de orientação biográfica muitas pessoas
descobrem que suas vidas têm sido sem autenticidade em determinados
setores das relações interpessoais. Por exemplo, problemas com autoridade
dos pais podem levar a padrões de dificuldades específicas com figuras
de autoridade, padrões repetitivos de disfunção, em relações sexuais,
podem ser rastreados até aos pais como modelos de comportamento sexual,
questões com os irmãos podem influenciar ou distorcer futuras relações
com os pares, e assim por diante.
Quando o processo de auto-exploração experiencial alcança o nível
perinatal, tipicamente descobrimos que, até aquele ponto, nossa
existência havia sido largamente sem autenticidade em sua totalidade,
não apenas em determinados seguimentos. Percebemos, para nossa surpresa
e confusão, que toda nossa estratégia de vida foi mal direcionada
e, assim, é incapaz de prover satisfação verdadeira. A razão disso
é o fato de ela ter sido motivada principalmente pelo medo da morte
e por forças inconscientes associadas ao nascimento biológico, que
não foram adequadamente processadas e integradas (nós nascemos anatomicamente,
mas não emocionalmente).
Quando nosso campo de consciência é fortemente influenciado pela
lembrança subjacente da luta no canal de parto, ela leva a uma sensação
de desconforto e insatisfação com a situação presente. Pode ser
focalizado sobre um largo espectro de questões: aparência física
insatisfatória, posses e recursos materiais inadequados, pouca influência
e posição social inferior; quantidade insuficiente, de poder e fama,
e muitas outras. Como a criança presa no canal de parto, sentimos
uma forte necessidade de alcançar uma situação melhor, que se encontra
em algum lugar do futuro.
Qualquer que seja a realidade das circunstâncias atuais, nós não
a achamos satisfatória. Nossa fantasia fica criando imagens de situações
futuras, que parecem mais satisfatórias do que a presente. Parece
que, enquanto não a alcançamos, a vida é apenas uma preparação para
um futuro melhor, algo que ainda não é "a coisa verdadeira". Isso
resulta em um padrão de vida, que foi descrito como um tipo de existência
de "roda viva" ou "corrida de ratos". Os existencialistas falam
de "autoprojeção", para o futuro.
Quando a meta não é atingida, atribuímos nossa continuada insatisfação
ao fracasso em alcançar as medidas de correção. Quando somos bem-sucedidos
e alcançamos os objetivos de nossas aspirações, isso tipicamente
não tem muita influência em nossos sentimentos básicos. A continuidade
da insatisfação é então atribuída ao fato de a escolha do objetivo
ter sido errada ou de o objetivo não ter sido suficientemente ambicioso.
O resultado é a substituição do objetivo antigo por um diferente
ou a amplificação do mesmo tipo de ambição.
De qualquer forma, o fracasso não é diagnosticado corretamente como
um resultado inevitável de uma estratégia fundamentalmente errada,
que em princípio é incapaz de proporcionar satisfação. Esse padrão
falho, aplicado em larga escala é responsável pela irracional e imprudente
busca de vários objetivos grandiosos, do que resulta muito sofrimento
e muitos problemas em nosso mundo. Ele pode ser efetuado em qualquer
nível de importância ou afluência, já que nunca traz a verdadeira
satisfação. A única estratégia capaz de reduzir significativamente
esse impulso irracional é reviver total e conscientemente e integrar
o trauma do nascimento na auto-exploração interna sistemática.
Raízes Transpessoais da Ganância Insaciável
Verdadeira como pode ser, a moderna pesquisa da consciência e a psicoterapia
experiencial têm descoberto que a fonte mais profunda da nossa
insatisfação e luta por perfeição encontra-se além do domínio biográfico
e perinatal. O desejo insaciável que guia a vida humana é de natureza
transpessoal. Nas palavras de Dante Alighieri, "O desejo de perfeição
é aquele desejo que sempre faz todos os prazeres parecerem incompletos,
pois não há nesta vida alegria ou prazer grande o suficiente, para
satisfazer a sede de nossa alma". No sentido mais geral, as raízes
transpessoais mais profundas da ganância insaciável podem ser melhor
compreendidas, através dos termos do conceito elaborado por Ken Wilber
(1980), do Projeto Atman. De acordo com essa compreensão, nossa
verdadeira natureza é divina e tem sido chamada por diferentes nomes
- Deus, Cristo Cósmico, Alá, Buda, Brahman, o Tao - e embora o processo
de criação nos separe e aliene de nossa fonte, a percepção desse fato
nunca é totalmente perdida. A força motivadora mais profunda na psique
humana, em todos os níveis da evolução da consciência, é o anseio
de retornar à experiência de nossa divindade. Contudo, as condições
constrangedoras dos consecutivos estágios de desenvolvimento não permitem
a experiência plena de completa liberação espiritual em e como Deus.
A verdadeira transcendência requer a morte do ser separado, morrendo
para o sujeito exclusivo. Por causa do medo de aniquilação e apego
ao ego, temos que nos acomodar aos substitutos do Atman, que são
específicos, para cada estágio particular. Para uma criança, é a
satisfação dos impulsos fisiológicos básicos e específicos da idade.
Para o adulto, o espectro de possíveis projetos Atman é muito amplo
e incluem, além de comida e sexo também dinheiro, fama, poder, aparência,
conhecimento e muitas outras coisas. Em decorrência de nossa profunda
sensação de que nossa verdadeira identidade é a totalidade da criação
cósmica e o princípio criativo em si, substitutos de qualquer grau
e escopo - os Projetos Atman - sempre permanecerão insatisfatórios.
Apenas a experiência da própria divindade, em um estado holotrópico
de consciência, poderá satisfazer nossas necessidades mais profundas.
Assim, a solução derradeira para a ganância insaciável está no mundo
interior, não nas perseguições seculares de qualquer tipo ou escopo.
Isso pode ser ilustrado pela seguinte citação de Traherne,
descrevendo uma experiência mística:
"As estradas eram minhas, o templo era meu,
as pessoas eram minhas. Os céus eram meus,
e então o sol, a lua e as estrelas e todo o mundo eram meus
e eu era o único espectador e apreciador dele.
Eu não conheci as rudes propriedades,
sem limites, sem divisões;
mas todas propriedades e divisões eram minhas;
todos tesouros e donos deles.
De maneira que sem mais nem menos fui corrompido
e fiz por aprender o sujo propósito desse mundo,
o qual agora desaprendi e tornei-me como era,
uma pequena criança novamente,
que possa entrar dentro do reino de Deus".
Abordagens Experienciais Facilitando a Transformação Pessoal Profunda e a Evolução da Consciência
A descoberta de que as raízes da violência humana e da ganância insaciável
vão muito além do que a psiquiatria acadêmica pode suspeitar e de
que seus reservatórios na psique são verdadeiramente enormes poderia,
em si e por si, ser muito desanimadora. Contudo, ela é contrabalançada
pela empolgante descoberta de novos mecanismos terapêuticos e potenciais
transformadores que se tornam disponíveis em estados holotrópicos,
nos níveis perinatal e transpessoal da psique.
Através dos anos, tenho visto profundas curas emocionais e psicossomáticas,
assim como transformações radicais de personalidade, em muitas pessoas
que se envolveram na busca interior séria e sistemática. Algumas
dessas pessoas meditavam e tinham uma prática espiritual regular,
outras tinham sessões psicodélicas supervisionadas ou participavam
de várias formas de psicoterapia experiencial ou de auto-exploração.
Como faziam conscientemente, enfrentando e integrando seqüências
de experiências perinatais e transpessoais, suas personalidades
tipicamente passavam por mudanças radicais.
Como o conteúdo do nível perinatal do inconsciente é trazido para
a consciência, o nível de agressão tipicamente diminui; e as pessoas
se tornam mais pacíficas, mais à vontade consigo próprias e mais
tolerantes com as outras. A experiência do renascimento psicoespiritual
e a conexão com as memórias positivas do pós-natal ou memórias do
pré-natal reduzem os impulsos irracionais e ambições e realça a
habilidade de apreciar as circunstâncias presentes da vida (atividades
diárias, natureza, música, amor erótico). Experiências de unidade
cósmica e da divindade no próprio indivíduo reduz mais o impulso
irracional, trazendo o senso de maravilhamento e a habilidade para
amar, abrindo as fontes profundas da criatividade. A mais consistente
conseqüência da experiência profunda da auto-exploração é a emergência
da espiritualidade universal da natureza mística, que está baseada
na experiência pessoal.
Os estados holotrópicos de consciência oferecem ainda, possibilidades
mais excitantes de mudanças evolucionárias positivas, na forma de
identificação experiencial com outras pessoas, grupos humanos inteiros,
animais, plantas e, até mesmo, materiais inorgânicos e processos
da natureza. Outras experiências poderiam proporcionar acessos experienciais
a eventos ocorridos em outros países, culturas e períodos históricos
e, até mesmo, nos reinos mitológicos e em seres arquetípicos do
inconsciente coletivo de Jung. O fato de que essas experiências
podem conter acuradas informações, sobre várias dimensões da existência,
muito além do que o indivíduo tem obtido em seu tempo de vida, através
dos canais convencionais, prova que eles são autênticos.
Isto sugere que, num nível mais profundo, cada psique individual
está intimamente conectada com o restante do Cosmos e, num certo
sentido, está de fato comensurada com ele. Desse modo, a moderna
pesquisa da consciência confirma a tese básica dos antigos Upanishads indianos de que cada um de nós, em última análise, é idêntico à
totalidade da existência e ao princípio criativo do universo. Um
indivíduo não é apenas um corpo egóico, mas é também o princípio
cósmico supremo (Atman-Brahman).
As observações acima, da psicologia transpessoal, têm estendido
longe a sua influência nas implicações práticas e teóricas para
a área de nossa discussão. As pessoas, que acessam de forma experiencial
a área perinatal de seu inconsciente, têm uma oportunidade única
de trazer para a consciência profundas energias destrutivas e autodestrutivas
e emoções perturbadoras, que estão armazenadas nesse domínio da
psique humana, que vêm para serem vivenciadas e integradas. Elas
também descobrem dentro de si próprios a espiritualidade profunda,
de uma natureza toda compassiva e universal. Como um resultado de
tal espiritualidade, sentem um aumento de paz mais interna, auto-aceitação,
tolerância em relação aos outros e aceitação das diferenças.
Essas mudanças aprofundam e se estendem indo além quando o processo
de autodescoberta experiencial alcança o nível transpessoal. O que
se inicia como sondagem psicológica da psique inconsciente, agora,
automaticamente se torna uma questão filosófica para o significado
da vida e uma jornada de descoberta espiritual. As pessoas que conectam
o domínio transpessoal da psique tendem a desenvolver uma nova apreciação
pela existência e reverência por toda vida. Uma das mais notáveis
conseqüências de várias formas de experiências transpessoais é a emergência
espontânea e desenvolvimento da preocupação ecológica e humanitária
profunda. Está baseada em uma quase consciência celular que os limites
no universo são arbitrários e que cada um de nós é idêntico à rede
inteira do Ser. Está subitamente claro, que não podemos fazer nada
à natureza sem, simultaneamente, fazer para nós próprios. As diferenças
entre as pessoas pareciam ser interessantes e enriquecedoras, ao invés
de ameaçadoras, fossem elas relativas a sexo, raça, cor, língua, convicção
política ou crença religiosa. É óbvio, que uma transformação desse
tipo pode aumentar nossas chances de sobrevivência, se ela puder ocorrer
em uma escala suficientemente grande.
Psicologia Transpessoal, Pesquisa da Consciência e Crise Global
Alguns dos insights de pessoas experienciando estados holotrópicos
de consciência estão diretamente ligados à atual crise global e sua
relação com a evolução da consciência. Eles mostram que nós exteriorizamos
no mundo moderno muito dos temas essenciais do processo perinatal,
que uma pessoa envolvida em profunda transformação pessoal precisa
encarar e resolver internamente. Os mesmos elementos que podemos encontrar
no processo de morte e renascimento psicológicos de nossas experiências
visionárias aparecem no noticiário noturno, diariamente. Isso é verdadeiro
principalmente em relação aos fenômenos, que caracterizam a III MPB.
Certamente podemos ver o enorme desencadeamento de impulsos agressivos
em muitas guerras e levantes revolucionários em todo o mundo, no
aumento da criminalidade, do terrorismo e das revoltas raciais.
Comportamentos e experiências sexuais estão tomando formas sem precedentes,
como as manifestadas nas liberdades sexuais dos mais jovens, promiscuidade,
casamentos abertos, livros, peças de teatro e filmes declaradamente
sexuais, liberação gay, experimentação sadomasoquista e muitas outras.
O elemento demoníaco está também se tornando cada vez mais manifesto,
no mundo moderno. O renascimento dos cultos satânicos e feitiçaria,
a popularidade dos livros e filmes de horror, com temas ocultos
e crimes com motivação satânica, atestam esse fato. A dimensão escatológica
é evidente na progressiva poluição industrial, acumulação de produtos
residuais numa escala global e as condições higiênicas deteriorando
rapidamente, nas grandes cidades.
Muitas das pessoas, com quem já trabalhamos, viram a humanidade
em uma encruzilhada crítica ou em face da aniquilação coletiva ou
de um salto evolutivo da consciência, com proporções sem precedentes.
Terence McKenna (1992) colocou, de forma bem sucinta: "A história
do macaco bobo acabou, de uma forma ou de outra". Parece que estamos
todos coletivamente envolvidos em um processo semelhante à morte
e renascimento psicológico, que muitas pessoas experienciaram, individualmente,
em estados holotrópicos de consciência. Se continuarmos a atuar
as problemáticas tendências destrutivas e autodestrutivas, que têm
origem nas profundezas do inconsciente, sem dúvida destruiremos
a nós mesmos e à vida no planeta. Porém, se conseguirmos internalizar
esse processo em uma escala suficientemente grande, isso poderá
resultar em um progresso evolutivo, que poderá nos levar muito além
da nossa atual condição de primatas. Por mais utópica que pareça,
a possibilidade de tal desenvolvimento pode ser nossa única chance
real.
Olhemos agora para o futuro e exploremos como os conceitos que surgiram
a partir da pesquisa da consciência, do campo transpessoal e do
novo paradigma da ciência podem ser postos em ação, no mundo. Embora
as realizações do passado sejam bastante impressionantes, as novas
idéias ainda formam um mosaico desarticulado, ao invés de uma visão
de mundo completa e compreensiva. Faz-se necessário muito trabalho
em termos de acumular mais dados, formular novas teorias e concluir
uma síntese criativa. Além disso, a informação existente precisa
alcançar um público muito maior, antes que se possa esperar um impacto
significativo, sobre a situação mundial.
Mas mesmo uma radical mudança intelectual para um novo paradigma,
em grande escala não seria suficiente para aliviar a crise global
e reverter o curso destrutivo em que nos encontramos. As forças
enraizadas tão profundamente quanto estão no inconsciente, impulsionando
esse círculo vicioso, poderiam duramente ser neutralizadas pelas
mudanças das estruturas cognitivas e uma nova visão de mundo. De
preferência, o que é requerido é uma profunda transformação emocional
e espiritual da humanidade. Usando a evidência existente, é possível
sugerir certas estratégias, que podem facilitar e apoiar cada processo.
Os esforços para modificar a humanidade teriam de começar com a
prevenção psicológica em uma idade precoce. Os dados da psicologia
pré-natal e perinatal indicam que poderíamos conseguir muito, através
da mudança das condições de gravidez, parto e cuidados pós-natais
- melhorando a preparação emocional da mãe durante a gravidez, praticando
o parto biológico e enfatizando no período pós-parto a nutrição
emocional do contato entre a mãe e a criança.
Muito tem sido escrito sobre a importância da criação, assim como
sobre as desastrosas conseqüências emocionais de condições traumáticas,
durante a primeira infância e infância. Certamente, essa é uma área
na qual a educação e acompanhamento contínuos são necessários. Contudo,
para poder aplicar os princípios teóricos que são conhecidos, os
próprios pais precisam alcançar suficiente estabilidade emocional
e maturidade. É de conhecimento geral que os problemas emocionais
são passados como uma praga, de geração para geração. Estamos perante
um complexo problema do ovo e da galinha.
A psicologia humanista e a transpessoal desenvolveram métodos eficazes
de auto-exploração, cura e transformação da personalidade. Alguns
deles provêm das terapias tradicionais, outros representam adaptações
modernas de práticas espirituais antigas. Tais abordagens ocorrem
com uma proporção muito favorável, entre ajudantes profissionais
e clientes, e há outras que podem ser praticadas no contexto de
grupos de auto-ajuda. Quando esse trabalho é sistemático, ele pode
levar à abertura espiritual e também tomar uma direção altamente
necessária em nível coletivo, para que nossa espécie sobreviva.
Finalmente, é essencial difundir as informações sobre essas possibilidades
e conseguir que um número suficiente de indivíduos se interesse,
pessoalmente, em seguir esses objetivos.
Parecemos estar envolvidos em uma corrida dramática contra o tempo,
sem precedentes em toda a história da humanidade. O que está em jogo
não é nada menos do que o futuro da vida, no planeta. Se continuarmos
com as antigas estratégias, que têm claras conseqüências extremamente
autodestrutivas, é improvável que a espécie humana sobreviva. Contudo
se um número suficiente de pessoas passar por um processo de profunda
transformação interna, talvez seja possível alcançar um nível de evolução
da consciência no qual possamos merecer o nome suntuoso, que demos
a nossa espécie: Homo sapiens - i.e., humanos sábios.
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* Este artigo foi originalmente publicado no Primal Renaissance: The
Journal of Primal Psychology, Vol. 2, No. 1, Primavera de 1996, pp.
3-26. Tinha sido apresentado na 13ª Conferência da International Transpersonal
Association, intitulada "Espiritualidade, Ecologia e Sabedoria Nativa",
a qual foi realizada em Killarney, Ireland, em Junho de 1994.