A humanidade, como um todo, possui enormes recursos na forma de
conhecimento tecnológico, de meios financeiros, de potencial
masculino e feminino. A ciência moderna tem desenvolvido meios
efetivos que podem resolver a maioria dos problemas urgentes no
mundo de hoje – combate à maioria das doenças,
eliminar a fome e a pobreza, reduzir a quantidade de resíduo
industrial e substituir combustíveis destrutivos de fóssil
por fontes renováveis de energia pura. Os problemas que surgem
no caminho não são de natureza econômica ou
tecnológica; suas origens mais profundas são intrínsecas
à personalidade humana.
Por causa desses problemas, recursos inimagináveis têm
sido desperdiçados na absurda competição braçal,
na luta pelo poder e na busca de “crescimento ilimitado”.
Esses problemas impedem uma distribuição mais apropriada
de riqueza entre indivíduos e nações, bem como
uma reorientação, no que diz respeito, exclusivamente,
as questões políticas e econômicas das prioridades
ecológicas, que são críticas para a sobrevivência
da vida nesse planeta.
As negociações diplomáticas, as medidas legais
e administrativas, as sanções sociais e econômicas,
as intervenções militares e outros esforços
similares têm tido muito pouco sucesso; de fato, eles têm,
freqüentemente, produzido mais problemas do que resolvido.
O porquê eles têm falhado tem se tornado, incrivelmente,
claro. As estratégias, utilizadas para aliviar essa crise,
estão enraizadas na mesma ideologia que as criou. Em última
análise, a atual crise global é, basicamente, uma
crise psicoespiritual e reflete o nível de evolução
de consciência da espécie humana. É, portanto,
difícil imaginar que ela possa ser resolvida sem uma radical
mudança interna da humanidade, em grande escala, e ascenda
a um nível mais elevado de maturidade emocional e consciência
espiritual.
A tarefa pode parecer muito irreal e utópica, para oferecer
alguma esperança real de infundir uma série completa
de diferentes valores e objetivos na humanidade. Considerando o
papel, sem igual, da violência e da ganância, na história
da humanidade, certamente, não parece muito plausível
a possibilidade de transformação da humanidade moderna
em uma espécie de indivíduos, capazes de uma coexistência
pacífica com seus companheiros, homens e mulheres, a despeito
da raça, da cor e da religião ou da convicção
política, nem com outras espécies. Estamos frente
à necessidade de infundir, na humanidade, profundos valores
éticos, sensibilidade às necessidades dos outros,
aceitação da simplicidade voluntária e uma
nítida mudança de consciência dos imperativos
ecológicos. À primeira vista, tal tarefa parece tão
fantástica até para um filme de ficção
científica.
Entretanto, embora séria e crítica, a situação
pode não ser tão sem esperança como parece.
Após quase meio século de estudos intensivos de estados
holotrópicos de consciência, cheguei à conclusão
que os conceitos teóricos e as abordagens práticas
desenvolvidas pela psicologia transpessoal, uma disciplina que está
tentando integrar a espiritualidade ao novo paradigma emergente
na ciência Ocidental, podem auxiliar a aliviar a crise, que
estamos todos enfrentando. Essas observações sugerem
que uma radical transformação psicoespiritual da humanidade
não é somente possível, mas já está
acontecendo. A questão é, somente, se ela pode ser
suficientemente rápida e extensiva para reverter a atual
tendência autodestrutiva da humanidade moderna.
A Visão de Mundo do Velho Paradigma e a Visão Subjacente
à Crise Global
A direção da antiga visão da civilização
tecnológica Ocidental recebeu a justificativa e um poderoso
apoio da ciência, com base no paradigma newtoniano-cartesiano
e no materialismo monístico. Essa visão de mundo se
baseia na suposição metafísica de que o universo
é um sistema mecânico, que é estritamente determinista
e no qual a matéria é a sua base. A vida, a consciência
e a inteligência foram vistas como lados de produtos da matéria
mais ou menos acidentais, essencialmente fortuitos, que aconteceram
numa parte de um universo gigante, após bilhões de
anos de evolução de materiais inorgânicos reativos
e inertes.
No velho paradigma, o universo e a natureza não têm
guiado a inteligência ou o projeto criativo. Toda a inacreditável
complexidade de formas, revelada pelas várias disciplinas
científicas, da astronomia até a biologia, para os
físicos quântico-relativistas, têm sido atribuídos
um papel sem sentido das partículas materiais. Partículas
de matéria inorgânica apenas aconteceram para gerar
componentes orgânicos e esses apenas aconteceram para organizá-las
em células. A evolução darwiniana inteira,
dos organismos unicelulares aos humanos, é vista como tendo
sido guiada pelas mutações genéticas acidentais
e pela seleção natural. De acordo com essa visão
de mundo, o principal mecanismo de evolução na natureza
sobreviveu da estratégia militante e mais saudável
do gen egoísta. Isso pareceu explicar e justificar a perseguição
do interesse individual na competição, voltado para
o econômico, o político e o militar coletivos, às
custas de outros interesses da vida pessoal.
Isso foi, posteriormente, reforçado pelas descobertas da
psicologia profunda, explorada por Sigmund Freud e seus seguidores,
os quais quiseram dizer que o nosso comportamento é, em última
análise, dirigido pelos instintos básicos. Dessa perspectiva,
os sentimentos de amor são, apenas, uma formação
reativa de nossa hostilidade inata ou um interesse desprovido de
sexo pelos nossos pais - o comportamento ético se baseia
no medo da punição, o interesse estético é
uma defesa psicológica contra os poderosos impulsos anais
e daí por diante. Sem as restrições sociais,
as instituições penais e os superegos, criados pelas
proibições dos pais e pelas leis, poderiam satisfazer
nossas vontades em atuações indiscriminadas de promiscuidade
sexual, assassinato e roubo (Freud: A Civilização
e seus Descontentes). As crenças religiosas e os interesses
espirituais de quaisquer espécies são, essencialmente,
atribuídas à superstição, à credulidade,
ao pensamento mágico primitivo, ao processo primário,
ao comportamento obsessivo-compulsivo, resultante da supressão
de impulsos anais e complexos de Édipo e Electra não-resolvido
ou resultado de sérias psicopatologias (Freud: Totem e Tabu,
Futuro de uma Ilusão).
Nossa visão científica de mundo atual provê
apoio implícito ou explícito para nossa ética
e estratégia de vida. Na sociedade capitalista Ocidental,
o sucesso pessoal, às custas dos outros, tem sido glorificado.
Parece, perfeitamente, natural criar um futuro melhor para um indivíduo
de nosso próprio grupo, às custas dos outros (ex.
pilhando as fontes não-renováveis de combustível
de fóssil e transformando-o em poluição, na
perseguição de nosso próprio nível de
qualidade; vendo o assassinato de civilizações inocentes,
em outros países, como “dano colateral”, na perseguição
de nossa própria segurança, etc). Somos inábeis
para ver e apreciar a importância crítica da cooperação,
da sinergia e da coexistência pacífica para a sobrevivência
planetária. Estamos, também, passando por lavagem
cerebral para acreditar que nosso bem-estar é diretamente
proporcional aos meios materiais e dependem criticamente deles –
dos ganhos pessoais e da posse, do crescimento do produto nacional
bruto, e daí por diante.
Existem problemas específicos adicionais, relacionados à
situação política atual nos Estados Unidos,
um país que, por causa de seu enorme poder político
e econômico, representa o elemento chave na crise global.
Os ideais democráticos são acalentados e defendidos,
principalmente, pelos americanos liberais. A principal filosofia
desse grupo é o humanismo; ela está tipicamente ligada
ao ateísmo, porque as crenças religiosas parecem ingênuas
a esse grupo e em conflito com a razão e a visão científica
de mundo. Essa perspectiva, portanto, não dirige a fome espiritual
e as necessidades; a história mostra que essas forças
são importantes e poderosas, inerentes à natureza
humana, mais poderosa do que o sexo, que Freud viu como força
de motivação primária da psique (Andrew Weil:
A Mente Natural). A preocupação social dos liberais,
seus esforços filantrópicos, a consciência ecológica
e os protestos anti-guerra, em sua forma presente, sentem falta
de uma base ideológica mais profunda e de uma fundação
espiritual. Eles podem, assim, ser facilmente demitidos, por causa
dos sinais de estranha fraqueza da mentalidade capitalista.
Isso parece se somar ao apelo, bastante difundido, do fundamentalismo
e dos grupos neoconservadores, que apresentam suas idéias
dissimuladas, em terminologia religiosa. Esses grupos violam, de
várias maneiras, os princípios básicos da democracia,
mas direcionam as necessidades espirituais de seus seguidores. Esses
seguidores tendem a fechar os olhos para seus líderes, que
estão alimentando-os sem dogmas religiosos e com uma perigosa
ilusão sem sentido, pois somente exploram suas necessidades
espirituais e, na realidade, não os satisfazem. De qualquer
maneira, mesmo nessa forma distorcida, as alusões ao divino
são extremamente poderosas e podem dominar os ideais democráticos
e a decência humana básica. A religião, que
poderia unir (religare = religar), torna-se um elemento divisor
no mundo, separando não somente um credo do outro, de um
modo conhecido da história (“somos cristãos,
vocês são pagãos”, “somos católicos,
vocês são protestantes”, “somos muçulmanos,
vocês são infiéis”, “somos judeus,
vocês são não-judeus”), mas, também,
especificamente, na forma americana (“somos os escolhidos
que irão experienciar ‘enlevo’; estaremos unidos
com Jesus, vocês serão esquecidos”).
As convicções, que dirigem uma proporção
significante do grupo fundamentalista, estão baseadas na
má interpretação, descrita na Bíblia,
do Armagedom e do Apocalipse. Elas são tão absurdas
e fantásticas que poderiam prover uma base suficiente para
um diagnóstico de psicose, se fossem relatadas por um paciente
psiquiátrico. Infelizmente, nos Estados Unidos contemporâneo,
eles dominam o pensamento de dez milhões de pessoas e têm
descoberto seus caminhos dentro do mais alto escalão do governo.
As perigosas tendências na situação global,
tais como a destruição do meio, a poluição
industrial, a crise política e o aumento da violência
são certamente bem-vindos por esse grupo, porque são
sinais da aproximação do Armagedom e uma pista da
eminência do ‘enlevo’ que os unirão com
Jesus (veja o “índice de enlevo”). É mais
do que um infortúnio, pois essa insanidade afeta as decisões
políticas, no mais alto nível, e tem à sua
disposição o poder militar americano. A referência
infeliz como “cruzada”, do inábil comandante-chefe
para a guerra no meio-Oeste, alimentou dentro da igualdade a ideologia
iludida de “jihad”, acalentada pelos fundamentalistas
muçulmanos e tornou a situação global particularmente
precária.
O que necessitamos, para neutralizar essa perigosa propaganda religiosa
que tem tido êxito em iludir e cegar tantos americanos, é
um novo mito guia, uma excitante nova visão, uma visão
que poderia estar embasada no melhor da ciência e, também,
na espiritualidade esclarecida, uma visão que poderia apelar
tanto para os aspectos racionais e espirituais da natureza humana.
Necessitamos de uma visão que é verdadeiramente democrática
(não uma democracia confusa com vigorosa exportação
de valores da sociedade capitalista Ocidental) e que provê
satisfação genuína de necessidades espirituais
humanas. Parece relevante incluir aqui uma passagem extensiva da
palestra de Stanford do Presidente tcheco, Vaclav Havel, para ilustrar
esse ponto:
“À primeira vista, a solução
é tão simples e tão óbvia que
parece banal: A única salvação do mundo
hoje, agora que as duas maiores e mais monstruosas utopias
totalitárias da humanidade até então
conhecidas – o Nazismo e o Comunismo – felizmente
têm fracassado, é a rápida disseminação
dos valores básicos do Oeste, que são as idéias
da democracia, os direitos humanos, a sociedade civil e o
livre mercado”. ...... “Ainda, se esse projeto
parece ser o melhor para o homem Ocidental e, talvez, o único
possível, mesmo assim, ele tem deixado uma grande parte
do mundo insatisfeita”.
“Esperar, em tal situação, que a democracia
seja facilmente expandida e que, por si própria, previna
um conflito de culturas, seria pior do que uma tolice. Pode
ser observado, por um instante, que muitos políticos
ou regimes apóiam essas idéias em palavras,
mas não as aplicam na prática. Ou eles dão
a elas um conteúdo completamente diferente do que o
Oeste dá a elas. Muito freqüentemente, ouvimos
dizerem que esses conceitos são tão rigorosamente
limitados para a tradição cultural ibero-americana,
que são simplesmente não transferíveis
a outros meios, ou que são somente um disfarce de alta
sondagem para o espírito destrutivo e desmoralizante
do Oeste”.
..... “A fonte principal de objeções poderia
parecer ser o que muitas sociedades culturais vêm como
o produto inevitável desses valores ou pelo produto
desses valores: moral, relativismo, materialismo, a negação
de alguma espécie de espiritualidade, um orgulhoso
desdém por tudo suprapessoal, uma profunda crise de
autoridade e o resultado geral da deterioração,
um consumismo frenético, uma falta de solidariedade,
o culto egoísta do sucesso material, a ausência
de fé na mais elevada ordem das coisas ou simplesmente
na eternidade, uma mentalidade expansionista, que mantém
desprezo por tudo que, de algum modo, resiste à enfadonha
construção em série e ao racionalismo
da civilização técnica”.
“Estou profundamente convencido que (a resposta) cabe
no que eu tenho já tentado sugerir --- naquela dimensão
espiritual que conecta todas as culturas e, de fato, toda
a humanidade. Se a democracia não é somente
para sobreviver, mas para expandir com sucesso e resolver
aqueles conflitos das culturas, então, em minha opinião,
será preciso redescobrir e renovar suas próprias
origens transcendentais......... A democracia planetária
não existe ainda, mas nossa civilização
global já está preparando um lugar para ela:
É a mesma Terra que habitamos, ligada ao Céu
sobre nós. Somente nesse ambiente pode ser novamente
criada a reciprocidade e o que há de comum na raça
humana, com reverência e gratidão, por aqueles
que transcendem de cada um de nós e todos nós,
juntos. A autoridade de uma ordem democrática mundial,
simplesmente, não pode ser construída sobre
nada mais, a não ser a autoridade revitalizada do universo”.
|
Ao seguir, tentarei delinear uma visão sobre
as bases de minhas observações advindas de anos de
pesquisa de estados holotrópicos de consciência. Não
é um construto ou resultado de especulação,
mas uma visão de mundo e uma estratégia de vida que
emergem, espontaneamente, em indivíduos, que têm tido
profundas experiências transpessoais, no processo de libertação
de si próprios, de imposições impressivas do
seu trauma de nascimento e de seu início de vida. Um trabalho
experiencial profundo, dessa qualidade, cria o que podemos chamar
de “inteligência espiritual”.
Não é difícil compreender que, um importante
pré-requisito, para uma existência com sucesso, é
a inteligência geral – a habilidade para aprender e
relembrar, pensar e raciocinar e, adequadamente, responder ao nosso
meio material. Uma pesquisa mais recente enfatiza a importância
da “inteligência emocional”, a capacidade de responder,
adequadamente, ao nosso meio humano e lidar, com competência,
em nossas relações interpessoais (Goleman, 1966).
As observações dos estudos de estados holotrópicos
confirmam o princípio básico da filosofia perene,
da qual a qualidade da nossa vida, finalmente, depende, e que pode
ser chamada de “inteligência espiritual”. A inteligência
espiritual é a capacidade de conduzir nossa vida de um modo
que reflita uma profunda compreensão filosófica e
metafísica da realidade de nós próprios. As
escrituras budistas se referem a essa espécie de sabedoria
espiritual como “prajna paramita”. Diferente dos dogmas
de igrejas organizadas, a inteligência espiritual adquire,
no processo de auto-exploração experiencial, o poder
de passar por cima da visão de mundo científica, da
ciência materialista. Ao mesmo tempo, é igualmente
eficaz, como um remédio, que pode neutralizar os dogmas inúteis
das religiões organizadas.
Descobertas da Pesquisa Moderna da Consciência e da
Psicologia Transpessoal
As observações da terapia psicodélica,
da respiração holotrópica e o trabalho
com indivíduos passando por crises espirituais têm
mostrado que a tendência à violência e à
ganância tem raízes mais profundas do que as teorias
biológicas atuais (macaco nu, gen egoísta, cérebro
trino) e as teorias psicológicas (psicanálise, psicologia
do ego e escolas relacionadas) assumem. As profundas forças
de motivação subjacentes, desse perigoso desenvolvimento
da natureza humana, têm sua origem nos níveis perinatal
e transpessoal da psique, domínios que a corrente principal
da psicologia não reconhece (Grof, em Psicologia do Futuro).
A descoberta de que as raízes da violência humana e
da ganância insaciável alcançam níveis
muito mais profundos do que a psiquiatria acadêmica jamais
suspeitou e que seus reservatórios na psique são verdadeiramente
enormes, podem em si e por si próprios serem muito desanimadores.
Entretanto, ele é equilibrado pela descoberta excitante dos
novos mecanismos terapêuticos e potenciais transformadores
que se tornam disponíveis nos estados holotrópicos,
nos níveis perinatal e transpessoal da psique.
Tenho visto através dos anos, uma profunda cura emocional
e psicossomática, bem como, uma radical transformação
da personalidade, em muitas pessoas que estiveram envolvidas em
sérias e sistemáticas experiências de auto-exploração
e busca interior. Algumas delas meditavam e tinham uma prática
espiritual regular, outras tinham sessões psicodélicas
supervisionadas ou participavam em várias formas de psicoterapia
experiencial e auto-exploração e rituais xamânicos.
Tenho, também, testemunhado profundas mudanças positivas
em muitas pessoas que receberam apoio adequado, durante episódios
espontâneos de suas crises psicoespirituais espontâneas
(“emergências espirituais”).
Como o conteúdo do nível perinatal do inconsciente
emergiu no consciente e foi integrado, esses indivíduos experienciaram
radicais mudanças de personalidade. Eles experienciaram consideráveis
reduções da agressão e se tornaram mais pacíficos,
melhor consigo próprios e tolerantes com os outros. A experiência
de morte e renascimento psicoespiritual e a conexão consciente
com positivas memórias pré-natais e pós-natais
reduziram os seus direcionamentos e suas ambições
irracionais. Trouxe uma mudança de foco do passado e do futuro
para o momento presente e realçou o seu élan vital
e a sua alegria de viver – uma habilidade de apreciar e ter
satisfação com as simples circunstâncias da
vida, tais como as atividades diárias, a alimentação,
o fazer amor, a natureza e a música. Um outro resultado importante
desse processo foi a emergência da espiritualidade de natureza
mística e universal, que diferente dos dogmas das correntes
religiões, foram muito autênticas e convincentes, porque
foram baseados em experiências pessoais profundas.
O processo de abertura e transformação espiritual,
tipicamente, aprofundou mais como resultado das experiências
transpessoais, tais como a identificação com outras
pessoas, grupos humanos inteiros, animais, plantas e até
materiais inorgânicos e processos na natureza. Outras experiências
provêm acesso ao consciente para os eventos que ocorrem em
outros países, culturas e períodos históricos
e, até, para o reino mitológico e para os seres arquetípicos
do inconsciente coletivo. Experiências de unidade cósmica
e experiências da própria divindade levaram a um aumento
de identificação com toda a criação
e trouxe o senso de encantamento, de amor, de compaixão e
de paz interior.
O que iniciou como investigação psicológica
da psique inconsciente, conduzido por propósitos terapêuticos,
automaticamente, se tornou uma busca filosófica pelo significado
da vida e uma jornada de descoberta espiritual. Pessoas que conectaram
o domínio transpessoal da psique tenderam a desenvolver uma
nova apreciação da existência com reverência
por toda a vida. Uma das mais notáveis conseqüências
das várias formas de experiências transpessoais foram
as emergências espontâneas e o desenvolvimento de profundas
preocupações humanitárias e ecológicas
e, precisam estar envolvidas em serviço, para algum propósito
comum. Isto se baseava em uma consciência quase celular de
que os limites no universo são arbitrários e que cada
um de nós é idêntico à rede inteira da
existência.
Ficou claro, subitamente, que não podemos fazer nada à
natureza sem ao mesmo tempo fazer a nós mesmos. As diferenças
entre as pessoas pareceram ser interessantes e enriquecedoras, ao
invés de ameaçadoras, ou eram relacionados ao sexo,
raça, cor, linguagem, convicção política
ou crença religiosa. Seguindo essa transformação,
essas pessoas (como muitos dos astronautas americanos que tinham
visto a terra do espaço externo – veja The Other Side
of the Moon de Mickey Lemle) desenvolveram um profundo senso de
ser cidadão planetário, ao invés de cidadão
de um país particular ou membro de um particular grupo racial,
social, ideológico, político ou religioso. É
obvio que a transformação dessa espécie poderia
aumentar nossas chances de sobrevivência, se pudesse ocorrer
numa escala suficientemente grande.
Uma Nova Visão da Realidade e um Novo Mito para Viver
A imagem do universo, como um todo subjacente à
nova visão, está baseada nas implicações
filosóficas da física quântica-relativista e
nos princípios antrópicos. Reconhece a consciência
como um aspecto fundamental da existência, igual ou possivelmente
supra-ordenador da matéria, ao invés de produto acidental,
um epifenômeno da matéria. Vê o universo como
um produto da inteligência criativa superior e permeada com
ele - anima mundi. Ao invés da consistência das supermáquinas
newtonianas de blocos de construção separados (partículas
elementares e objetos) o universo é mostrado como um campo
unificado, um todo orgânico no qual tudo é cheio de
significado interconectado.
A nova biologia reconhece que a evolução das espécies
foi guiada pela inteligência criativa e que a sinergia e cooperação
entre as espécies foi, pelo menos, tanto um importante princípio
guia como uma adaptação à sobrevivência
de Darwin. A biosfera e seus habitantes não podem ser compreendidos,
quando levamos em consideração somente materiais que
os constituem, sem explicação de onde vem a criação
das ordens, das formas, das relações dos significados
e dos aspectos estéticos. Os conceitos similares aos campos
morfogenéticos e a ressonância mórfica de Sheldrake
são críticos para a compreensão da função
do DNA e o código genético, bem como o relacionamento
entre consciência, memória e o cérebro (ver
New Science of Life de Sheldrake). O pioneiro pensamento holográfico
de David Bohm e Karl Pribram lançou nova luz no relacionamento
entre a parte e o todo (ver Bohm’s Wholeness e the Implicate
Order and Pribram’s Languages of the Brain). Ervin Lazslo
tem provido um brilhante modelo de universo interconectado em seu
conceito do “campo psi” ou campo acásico (ver
os livros de Laszlo: The Creative Cosmos, The Connectivity Hypothesis,
e Science and the Akashic Field).
A moderna pesquisa da consciência e a psicologia transpessoal
têm mostrado as dolorosas limitações e as concepções
errôneas da psicanálise freudiana na compreensão
da psique humana, na saúde e na doença. Elas sugerem
uma urgente necessidade de uma radical revisão das suposições
mais fundamentais das principais correntes da psicologia e da psiquiatria
nas seguintes áreas:
A Natureza da Psique Humana e as Dimensões da Consciência
A psicologia e a psiquiatria acadêmicas tradicionais
usam um modelo que está limitado pela biologia, pela biografia
pós-natal e pelo inconsciente individual freudiano. Ao considerar
todos os fenômenos que ocorrem em estados holotrópicos,
precisamos drasticamente revisar nossa compreensão das dimensões
da psique humana. Além do nível biográfico
pós-natal, a nova cartografia expandida inclui dois domínios
adicionais: o perinatal (relacionado ao trauma do nascimento) e
o transpessoal (que compreende o ancestral, o racial, o coletivo,
as memórias filogenéticas, as experiências cármicas
e as dinâmicas arquetípicas).
A Natureza e a Arquitetura das Desordens Emocionais e Psicossomáticas
Para explicar várias desordens que não têm
uma base orgânica (“psicopatologia psicogênica”),
a psiquiatria tradicional utiliza um modelo que está limitado
aos traumas biográficos pós-natais na infância,
na adolescência e na vida mais tarde. A nova compreensão
sugere que as raízes de tais desordens vão muito além,
incluindo significativas contribuições do nível
perinatal (trauma do nascimento) e dos domínios transpessoais
(como especificado acima).
Mecanismos Terapêuticos Efetivos
A psicoterápica tradicional conhece somente mecanismos
que operam no nível biográfico material, tais como
as lembranças dos eventos esquecidos, a supressão
da repressão, a reconstrução do passado, dos
sonhos ou sintomas neuróticos, o reviver das memórias
traumáticas e as análises da transferência.
A pesquisa holotrópica revela muitos outros mecanismos importantes
de cura e transformação da personalidade que se tornam
disponíveis, quando nossa consciência alcança
os níveis perinatal e transpessoal.
Estratégia de Psicoterapia e Auto-Exploração
O objetivo das psicoterapias tradicionais é alcançar
uma compreensão intelectual de qual é a função
da psique, porque os sintomas se desenvolvem e o que eles significam.
Essa compreensão, então, se tornou a base para o desenvolvimento
de uma técnica que os terapeutas podem usar para tratar seus
pacientes. Um sério problema com essa estratégia é
a surpreendente falta de acordo, entre psicólogos e psiquiatras,
no que diz respeito às mais fundamentais questões
teóricas e os inacreditáveis números resultantes
das escolas de psicoterapia concorrentes. O trabalho com os estados
holotrópicos nos mostra uma alternativa radical surpreendente
– a mobilização de uma profunda inteligência
mais interna dos clientes, que guia o processo de cura e transformação.
O Papel da Espiritualidade na Vida Humana
A ciência materialista Ocidental não tem lugar
para nenhuma forma de espiritualidade e, de fato, a considera incompatível
com a visão de mundo científica. A pesquisa moderna
da consciência mostra que a espiritualidade é uma dimensão
natural e legítima da psique humana e do esquema universal
das coisas. Entretanto, nesse contexto, é importante enfatizar
que essa afirmação se aplica à espiritualidade
genuína e não às ideologias de religiões
organizadas.
A Natureza da Realidade: Psique, Cosmos e Consciência
As necessárias revisões discutidas até
esse ponto foram relacionadas à teoria e prática da
psiquiatria, psicologia e psicoterapia. Entretanto, o trabalho com
os estados holotrópicos traz desafios de uma natureza muito
mais fundamental. Muitas das experiências e observações
que ocorrem durante esse trabalho são tão extraordinárias
que não podem ser compreendidas, no contexto da abordagem
materialista monística da realidade. Seus impactos conceituais
são tão mais influentes que minam as mais básicas
suposições metafísicas da ciência Ocidental,
em particular, àquelas que dizem respeito à natureza
da consciência e ao seu relacionamento com a matéria.
A nova visão de mundo e a estratégia de vida básica
que emerge espontaneamente no processo de exploração
profunda são:
1. Em escala individual:
Nossas necessidades mais profundas são de natureza espiritual;
os meios materiais não podem, em si e por si mesmos, nos
trazer realização e felicidades, uma vez que tenhamos
alcançado satisfação das necessidades biológicas
básicas (alimento, segurança, abrigo, sexo). No curso
da psicoterapia, orientada biograficamente, muitas pessoas descobrem
que suas vidas têm sido não-autênticas, em certos
setores específicos de relações interpessoais.
Por exemplo, os problemas de autoridade paternal podem levar a padrões
específicos de dificuldades com figuras de autoridade, repetidos
padrões disfuncionais em relacionamentos sexuais podem ser
delineados para os pais como modelos para comportamento sexual,
questões entre irmãos podem colorir e distorcer futuros
relacionamentos dos pares e assim por diante.
Quando o processo de auto-exploração experiencial
alcança o nível perinatal, usualmente descobrimos
que nossa vida cresce para aquele ponto que tem sido grandemente
não-autêntico em sua totalidade, não apenas
em certos segmentos parciais. Descobrimos, para nossa surpresa e
admiração, que nossa estratégia inteira de
vida tem sido mal direcionada e, portanto, incapaz de prover satisfação
genuína. A razão para isso é o fato que foi
principalmente motivado pelo medo da morte e pelas forças
inconscientes associadas com o nascimento biológico, que
não tem sido adequadamente processado e integrado. Em outras
palavras, durante o nascimento biológico, completamos o processo
automaticamente, mas não emocionalmente.
Quando o nosso campo de consciência é fortemente influenciado
pela memória subjacente da luta no canal do nascimento, ele
conduz a um sentimento de desconforto e insatisfação
com a situação presente. Esse descontentamento pode
focar um grande espectro de questões, como, por exemplo,
a aparência física insatisfatória, os recursos
inadequados e as posses materiais, a baixa posição
e a influência social, a quantidade insuficiente de poder,
a fama e muitos outros. Como a criança presa no canal do
parto, sentimos uma forte necessidade de estar em uma melhor situação,
que nos coloque em algum lugar no futuro.
Qualquer que seja a realidade das circunstâncias presentes,
não a percebemos como satisfatória. Nossa fantasia
continua criando imagens de situações futuras, que
se apresentam mais satisfatórias do que aquela presente.
Parece que, até que a alcancemos, a vida será apenas
uma preparação para um futuro melhor, não ainda
“a coisa real”. Isso resulta no padrão de vida
que meu cliente tem descrito como “moinho” (a imagem
de um hamster correndo dentro de uma roda giratória) ou como
um tipo de existência, comumente conhecida como “corre-corre”.
Os existencialistas falam sobre “autoprojeção”
para o futuro. Essa estratégia é uma falácia
básica da vida humana. É, essencialmente, uma estratégia
do perdedor, já que não se entrega à satisfação
que é esperada dela. Dessa perspectiva, é irrelevante,
se traz ou não frutos, para o mundo material. Nas palavras
de Joseph Campbell, significa “chegar ao topo da escada e
descobrir que permanece contra a parede errada”.
Quando o objetivo não é alcançado, a insatisfação
contínua é atribuída ao fato de termos falhado
para alcançar a medida corretiva. Quando conseguimos alcançar
o objetivo de nossas aspirações, esse objetivo geralmente
não exerce muita influência sobre nossos sentimentos
básicos. Desse modo, podemos afirmar que a insatisfação
contínua é, então, atribuída ora sobre
a escolha indevida do objetivo, ora por não ser ambiciosa
o suficiente. O resultado, pois, seria a substituição
do objetivo antigo por um objetivo diferente, ou mesmo, pela ampliação
do mesmo tipo de ambições.
De qualquer maneira, a falha não é corretamente diagnosticada
como sendo um resultado inevitável, principalmente, de um
erro de estratégia de vida, que é em princípio
incapaz de prover satisfação. Esse falso padrão,
que resulta em muito sofrimento e muitos problemas no mundo, aplicado
em grande escala, é responsável pela ousadia irracional,
na perseguição de vários grandiosos objetivos.
Ele pode se apresentar em qualquer nível de importância
e afluência, já que nunca traz satisfação
verdadeira. A única estratégia, que pode reduzir de
modo significativo essa força irracional, é a consciência
plena, ao reviver e integrar o trauma do nascimento, em uma sistemática
auto-exploração interna, conectando o nível
transpessoal da psique.
A pesquisa moderna da consciência e a psicoterapia experiencial
têm descoberto que a fonte mais profunda de nossa insatisfação
e a busca da perfeição fica, mesmo, além do
domínio perinatal. Esse insaciável desejo ardente,
que direciona a vida humana, é, fundamentalmente, transpessoal
em natureza. Nas palavras de Dante Alighieri, “O desejo de
perfeição é aquele que sempre faz cada prazer
parecer incompleto, por não haver alegria ou prazer tão
grande nessa vida, que possa saciar a sede de nossa alma”
(Dante, 1990).
No sentido mais geral, as raízes transpessoais mais profundas
da ganância insaciável podem ser descritas em termos
do conceito de Projeto Atman de Ken Wilber (Wilber, 1980). Nossa
verdadeira natureza é divina – Deus, Cristo Cósmico,
Alá, Buda, Brahma, o Tao – e, embora o processo de
criação nos separe e aliene de nossa fonte profunda,
a consciência desse fato nunca está completamente perdida.
A mais profunda força motivadora na psique, em todos os níveis
de evolução da consciência, é retornar
à experiência de nossa própria divindade. Entretanto,
as condições que restringem os estágios consecutivos
de desenvolvimento impedem uma experiência completa de liberação
total em Deus e como Deus.
A transcendência real requer morte do self separado, morrendo
para o sujeito exclusivo. Por causa do medo de extermínio
e por causa da avareza do ego, que são específicos
para cada estágio particular, o indivíduo aceita por
Atman substitui ou sub-roga. Para o feto e o nascituro, isso significa
a satisfação experienciada no útero bom ou
no seio bom. Para um bebê, isso é satisfação
da idade específica das necessidades fisiológicas.
Para o adulto o alcance dos possíveis projetos Atman é
grande; inclui além de alimento e sexo, também, dinheiro,
fama, poder, aparência, conhecimento e muitos outros.
Por causa da profunda percepção de que a nossa verdadeira
identidade é a totalidade da criação cósmica
e do próprio princípio criativo, os Projetos Atman
substituídos até certo grau e extensão permanecerão
sempre insatisfatórios. Somente a experiência da divindade,
num estado holotrópico de consciência, pode preencher
nossas necessidades mais profundas. Desse modo, a melhor solução
para a ganância insaciável está no mundo interior,
não em perseguição secular de alguma espécie
e campo de ação. O místico e poeta persa Rumi
asseverou que
[t]odas as esperanças,
desejos, amores e afeições que as pessoas têm
por diferentes coisas – pais, mães, amigos, céus,
a terra, palácios, ciências, trabalhos, alimento,
bebida – o santo sabe que esses são desejos por
Deus e todas essas coisas são véus. Quando os
homens deixam esse mundo e vêm o Rei sem esses véus,
então sabem que tudo se resumia em véus e capas,
que o objeto de seus desejos foi, na realidade, Algo Especial
(Hines, 1996). |
2. No nível coletivo:
Como os organismos biológicos, estamos incrustados
no meio natural e, criticamente, dependemos do ar limpo, de água
pura e solo. Nossa mais alta prioridade tem de ser para proteger
essas necessárias fontes vitais para a sobrevivência
e saúde. Sem outras preocupações, tais como
o lucro econômico, o nacionalismo ideológico, os motivos
religiosos deveriam ser permitidos, para afastar as preocupações
com a saúde e a sobrevivência dos indivíduos
e das espécies. Como Buckminster Fuller nos lembrou, somos
a “nave espacial terra” com recursos limitados. Isso
requer que nos orientemos sobre as fontes de energia renováveis,
que serão sempre disponíveis e não poluamos
nosso meio ambiente (energia solar, ponto zero de energia?). Não
deveria ser permitido produzir materiais que não são
biodegradáveis, sem providenciar a reciclagem ou sua destruição.
A escalada da poluição química da água,
do ar e do solo, a acumulação de partículas
radioativas espalhadas, resultantes de uma explosão nuclear
e, juntamente com plástico flutuando no oceano, cobrindo
uma área do tamanho do Texas, deveria ser um sério
aviso.
Nossa unidade com a natureza, bem como todos os companheiros humanos,
sugere que deveríamos transcender os limites de etnia, sexo,
nacionalidade, cultura, política e religião, partilhando
e criando uma civilização planetária. A violência
tem de ser eliminada como um meio aceitável de resolução
de conflitos. Deveríamos ter uma constituição
mundial que vê a proteção do meio ambiente e
da vida humana como o imperativo mais elevado. Nosso foco primário
em política estrangeira deveria ser sobre sinergia, cooperação
e amizade, não combatendo inimigos (e certamente não
fazendo inimigos). Os Estados Unidos com seus inacreditáveis
recursos científicos e meios econômicos deveriam se
tornar a força líder no desenvolvimento das energias
alternativas. Esses objetivos merecem um esforço concentrado
das melhores mentes em ciência (comparável ao projeto
Manhattan) e poderiam também ser uma solução
radical a longo termo, de um sério problema político.
Seu sucesso poderia nos fazer independentes do petróleo do
Oriente Central e eliminar, portanto, a perigosa dependência
econômica do mundo árabe. Poderia, também, ser
provavelmente o mais efetivo caminho de combater o terrorismo dos
muçulmanos fundamentalistas e o perigo da jihad.
Deveria ser possível desenvolver programas que poderiam auxiliar
a economia americana e ao mesmo tempo ajudar os países subdesenvolvidos,
fazer amigos, e gerar respeito no mundo (ajudando a desenvolver
a infra-estrutura na Índia, eliminar os famintos e doentes
ou irrigar partes da África). O aumento do padrão
de vida tem sido mostrado ser o caminho mais efetivo de combate
à agitação social e ao perigo do comunismo.
Lições dos Estados Holotrópicos para
a Psicologia da Sobrevivência
Algum dos insights de pessoas que experienciam estados
holotrópicos de consciência estão diretamente
relacionados à atual crise global e seus relacionamentos
com a evolução da consciência. Eles mostram
que temos exteriorizado, no mundo moderno, muitos dos temas essenciais
do processo perinatal, que uma pessoa envolvida em transformação
pessoal profunda tem que enfrentar e entrar em acordo internamente.
Os mesmos elementos que poderíamos encontrar nos processos
de morte psicológica e renascimento em nossas experiências
visionárias constituem as manchetes de hoje. Isso é
particularmente verdadeiro no que diz respeito ao fenômeno
que caracteriza a MPB III.
Vemos, certamente, a enorme erupção do impulso agressivo
em muitas guerras e levantes revolucionários no mundo, na
elevação da criminalidade, terrorismo e nos tumultos
raciais. Igualmente dramático e notável é a
elevação da repressão sexual e a libertação
do impulso sexual, tanto no modo saudável quanto no problemático.
Comportamentos e experiências sexuais estão tomando
formas sem precedentes, como as manifestadas na liberdade sexual
dos adolescentes, no sexo antes do casamento, nos elevados índices
de divórcio, nos livros declaradamente sexuais, nas peças
e nos filmes, na experimentação sado-masoquista e
muitas outras.
O elemento demoníaco está, também, se tornando
cada vez mais manifesto no mundo moderno. O renascimento dos cultos
satânicos e da feitiçaria, a popularidade de livros
e filmes de horror com temas ocultos e os crimes com motivações
satânicas atestam esses fatos. A dimensão escatológica
é evidente na poluição industrial progressiva,
a acumulação dos produtos gastos em uma escala global
e, rapidamente, deteriorando as condições higiênicas
nas grandes cidades. Uma forma mais abstrata da mesma tendência
é a escalada da corrupção e a degradação
das instituições políticas, econômicas
e religiosas, incluindo a presidência americana.
Muitas das pessoas com quem temos trabalhado viram a humanidade
face a uma travessia crítica, ou numa aniquilação
coletiva ou num salto evolucionário de consciência,
com uma dimensão e natureza sem precedentes. Terence McKenna
colocou muito sucintamente: “A história do macaco estúpido
acabou, de um modo ou de outro” (McKenna, 1992). Parece que
estamos coletivamente envolvidos num processo equivalente ao processo
psicológico de morte e renascimento, que tantas pessoas têm
experienciado individualmente nos estados holotrópicos de
consciência. Se continuarmos a atuar com as problemáticas
tendências autodestrutivas e destrutivas originárias
das profundezas do inconsciente, sem dúvida, destruiremos
nós próprios e danificaremos seriamente a vida nesse
planeta. Entretanto, se obtivermos sucesso na internalização
desse processo, numa escala suficientemente grande, pode resultar
em um progresso evolucionário que pode nos levar tão
longe e além de nossa condição presente como
agora estamos dos primatas. Tão utópico como a possibilidade
de tal desenvolvimento possa parecer, parece ser nossa única
real chance.
Deixe-nos agora olhar para o futuro e explorar como os conceitos
que têm emergido da pesquisa da consciência, dos campos
transpessoais e do novo paradigma na ciência poderiam ser
colocados em ação no mundo. Embora as realizações
passadas sejam muito expressivas, as novas idéias ainda formam
um mosaico desarticulado, ao invés de uma visão de
mundo compreensiva e completa. Muito trabalho tem de ser feito,
em termos de acumulação de mais dados, formulando
novas teorias e realizando uma síntese criativa. E ainda,
a informação existente tem que alcançar muitas
grandes audiências, antes que um significativo impacto na
situação mundial possa ser esperado.
Mas mesmo uma radical mudança intelectual para um novo paradigma,
numa grande escala, poderia não ser suficiente para aliviar
a crise global e reverter o curso destrutivo em que estamos. Isso
pode requerer uma profunda transformação emocional
e espiritual da humanidade. Usando a evidência existente,
é possível sugerir certas estratégias, que
podem facilitar e apoiar tais processos. Esforços para mudar
a humanidade poderiam ter início com a prevenção
psicológica nos anos iniciais de vida. Os dados da psicologia
pré-natal e perinatal indicam que muito pode ser realizado
pela mudança das condições de gravidez, parto
e cuidado pós-natal. Isso poderia incluir uma melhor preparação
emocional da mãe, durante a gravidez, praticando parto natural,
criando uma psicoespiritualidade com o esclarecido meio ambiente
do nascimento e, emocionalmente, cultivando contato nutritivo entre
a mãe e a criança, no período pós-parto.
Muito tem sido escrito sobre a importância da criação
da criança, bem como das desastrosas conseqüências
emocionais das condições traumáticas, na tenra
infância e infância. Certamente, essa é uma área
onde a educação continuada e a orientação
são necessárias. Entretanto, para estar disponível
para aplicar os princípios conhecidos teoricamente, os pais
têm de alcançar estabilidade emocional suficiente e
maturidade. É bem conhecido que os problemas emocionais são
passados como praga de geração a geração.
Estamos aqui frente a um problema muito complexo da galinha e o
ovo.
As psicologias humanística e transpessoal têm desenvolvido
métodos experimentais efetivos de auto-exploração,
cura e transformação de personalidade. Alguns desses
métodos vêm de tradições terapêuticas,
outros representam adaptações modernas de práticas
espirituais nativas e antigas. Existem abordagens com uma relação
muito favorável entre facilitadores profissionais e clientes
e outros que podem ser praticados no contexto de grupos autofacilitadores.
O trabalho sistemático com eles pode levar a uma abertura
espiritual, um movimento na direção que é,
numa escala coletiva, seriamente necessitada, para nossa espécie
sobreviver. É essencial espalhar a informação
sobre essas possibilidades e obter pessoas interessadas em persegui-las.
Uma importante parte desses esforços poderia ser a criação
de uma rede, provendo assistência psicológica e apoio
a indivíduos, passando por transformações psicoespirituais
espontâneas em emergências espirituais. No momento,
muitas dessas pessoas são mal diagnosticadas como sofrendo
de psicose e a potencialidade de cura e o processo evolucionário
de transformação é suprimido por medicação
tranqüilizante.
Parecemos estar envolvidos numa corrida dramática por tempo,
sem precedentes em toda a história da humanidade. O que está
em jogo é nada menos do que o futuro da vida nesse planeta.
Se continuarmos com as velhas estratégias, que são,
claramente em suas conseqüências, autodestrutivas de
um modo extremo, é improvável que a espécie
humana sobreviva. Entretanto, se um número suficiente de
pessoas passar por um processo de profunda transformação
interior, poderemos alcançar um estágio e nível
de evolução de consciência que merecerá
o orgulhoso nome que temos dado à nossa espécie: homo
sapiens.
A visão compreensiva descrita acima pode ser vista como um
consistente mosaico de muitas peças, cada uma das quais representa
os resultados de pesquisa numa particular disciplina científica.
Desse modo, o desenvolvimento e o refinamento posterior dessas várias
partes requer, cooperação interdisciplinar e comunicação
dos conceitos teóricos e suas aplicações práticas,
com o auxílio de várias mídias.
_ S. G.
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