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"Somente uma nova visão espiritual - cósmica
em suas dimensões e global em abrangência – pode
salvar a civilização". _Vaclav Havel,
Presidente da República Tcheca.
Prezados Amigos,
Nós gostaríamos de convidá-los para a 16ª
Conferência Transpessoal, cujo tema principal é o papel
da imaginação mítica na sociedade moderna. Já
se passaram oito anos desde a última Conferência da ITA,
que aconteceu em Manaus, Brasil, intitulada Tecnologias do Sagrado:
Antiga, Aborígine e Moderna. Para muitos de nós, a exploração
experiencial e teórica de vários caminhos de entrada
no reino do sagrado ocorreu no poderoso ambiente da selva amazônica
e numa atmosfera especial criada pela presença de muitos xamãs,
curadores, professores espirituais e sérios buscadores, fazendo
dessa conferência um evento verdadeiramente mágico.
Durante esse período recebemos um grande número de cartas
de participantes entusiasmados, que consideraram o encontro de Manaus
uma experiência transformadora. Com o passar dos anos, muitas
pessoas manifestaram o interesse em participar de uma nova conferência.
Infelizmente, os recursos financeiros da ITA, uma organização
sem fundos lucrativos, criticamente dependente do rendimento de suas
conferências e donativos, não foram suficientes para
o lançamento de uma outra grande conferência.
Dois anos atrás, contribuições financeiras inesperadas
de vários amigos generosos proveram a semente financeira para
um outro encontro internacional. É graças a eles que
podemos continuar a tradição das conferências
da ITA, que agora dá oportunidade de continuar por mais de
três décadas um intercâmbio cultural, de idéias
e valores transpessoais. Esse encontro está inserido em um
contexto mundial no qual a perspectiva transpessoal mostra-se cada
vez mais relevante. Nos últimos anos, ações políticas
e militares, especialmente danosas ao meio ambiente, foram implementadas
de forma cada vez mais acentuada, gerando uma crise de proporções
sem precedentes.
Negociações diplomáticas, medidas administrativas
e legais, sanções econômicas e sociais, intervenções
militares e outros esforços similares têm tido muito
pouco sucesso em aliviar essa crise. Como um assunto ou fato, tais
esforços têm freqüentemente produzido mais problemas
do que solução. Cada vez tem ficado mais claro o porque
eles têm falhado. As estratégias usadas para aliviar
essa crise estão enraizadas na mesma ideologia que, inicialmente,
as criou.
Em última análise, a atual crise global é acima
de tudo uma crise psicoespiritual; ela reflete o nível de evolução
de consciência da espécie humana. É, portanto,
difícil de imaginar que ela poderia ser resolvida sem uma radical
transformação interna da humanidade em grande escala
e ser elevada a um nível de maturidade emocional e consciência
espiritual. É nesse processo de auto-aprimoramento que a visão
transpessoal pode desempenhar um importante papel.
Três séculos de revolução científica
e industrial produziu triunfos tecnológicos jamais pensados,
como por exemplo, a energia nuclear, viagens espaciais, laser, computadores,
TV em cores, quebra do código genético, as maravilhas
da medicina moderna e muitas outras. Entretanto, ao curso da segunda
metade do século vinte, tornou-se cada vez mais óbvio
que esse progresso embriagante tem um perigoso lado sombrio. O custo
para o rápido acúmulo de conhecimento científico
e triunfos tecnológicos tem sido a perda dos valores espirituais
e a progressiva alienação – alienação
de nosso corpo, de cada um de nós, da natureza e da ordem cósmica.
O aumento da violência e do comportamento viciado, a destruição
dos recursos não-renováveis, a devastação
ecológica e a ameaça da poluição industrial
ao princípio básico da vida nesse planeta têm
sido a conseqüência lógica do desencantamento da
visão de mundo da civilização tecnológica.
Entre os poucos avanços promissores, nessa situação
que se apresenta desmotivadora, as descobertas na psicologia profunda
têm minado a hegemonia da visão de mundo materialista
mecanicista pela redescoberta das dimensões da realidade numinosa
oculta. Essa nova perspectiva está intimamente conectada ao
reconhecimento dos elementos míticos governantes das dinâmicas
do inconsciente da psique humana. Os primeiros indícios dessa
abordagem aparecem nos trabalhos de Freud através de uma associação
vaga entre processos internos e determinados conceitos, tais como
o complexo de Édipo, Eros e Tanatos e se estendendo a uma forma
madura e plena na exploração e especulação
teórica de C. G. Jung.
As pesquisas pioneiras de Jung levaram-no à descoberta do inconsciente
coletivo e seus princípios governantes ou arquétipos.
Embora ele, inicialmente, concebesse os arquétipos como um
fenômeno trans-individual, um fenômeno essencialmente
intrapsíquico, seus estudos posteriores de eventos sincrônicos
convenceram-no que eles eram universais em natureza e desempenhavam
um papel igualmente crítico em modelar o processo no mundo
externo. Essas observações desafiaram as pedras angulares
da visão de mundo mecanicista – a dicotomia cartesiana
entre o observador subjetivo e o mundo objetivo; e a crença
no determinismo e na causalidade linear como princípios explanatórios
exclusivos. Essas observações descortinaram a possibilidade
de fazer uma ponte entre a espiritualidade e a ciência e iniciar
o processo de re-encantamento do mundo.
Uma das mais importantes conseqüências da pesquisa de Jung
foi a nova forma radical de compreensão da natureza e função
do mito. Seu avanço inicial de compreensão nessa visão
foi, posteriormente, desenvolvido pelos seus estudantes e seguidores
como Marie-Louise von Franz, Joseph Campbell, Mircea Eliade, James
Hillman, Marion Woodman e outros. Esses estudiosos têm mostrado
que os mitos não são produtos fictícios da fantasia
humana, mas sim reflexos de forças arquetípicas, princípios
organizadores cósmicos primordiais, que formam e informam a
dinâmica da psique. Constituem eventos e movimentos na história
humana e processos evolucionários na natureza.
No decorrer do século vinte, as descobertas da psicologia arquetípica,
validadas pelas descobertas da moderna pesquisa da consciência,
revolucionaram o pensamento em muitas áreas da vida moderna
– psiquiatria, psicologia, psicoterapia, biologia, antropologia,
filosofia, teologia, história, economia e política.
A visão transpessoal do mundo mostrou-se compatível
com a promoção da quebra de paradigma em várias
disciplinas científicas, em particular, as implicações
filosóficas da física quântica relativista, a
holografia ótica e a teoria dos sistemas.
Em razão da grande autoridade que a ciência alcançou
na civilização industrial, graças aos muitos
triunfos práticos que mudaram, profundamente, nossa vida diária
e transformaram a face de nosso planeta, a emergência originária
dessa visão de mundo, capaz de integrar o melhor da espiritualidade
com o melhor da ciência, é um pré-requisito para
superar a alienação da humanidade e o desencantamento
do cosmos, dois produtos da visão de mundo materialista, que
residem no núcleo da atual crise global. Desse modo, a compreensão
do papel das forças arquetípicas na base do processo
na psique humana e no mundo material é de crítica importância
para o futuro da humanidade e da vida no planeta.
Joseph Campbell, conhecido como um dos maiores mitólogos do
século vinte, freqüentemente enfatizava em suas palestras
que a vida de todas as civilizações do passado têm
sido moldadas e informadas – desconhecido de sua comunidade
– pelas dinâmicas arquetípicas; cada uma delas
tem um mito ou mitos regentes. Campbell acreditava que era essencial
identificar e compreender o mito condutor da sociedade moderna e apoiar
a emergência do novo mito, que poderia inspirar a coexistência
pacífica, a tolerância, a cooperação e
sinergia de vários grupos humanos, bem como reverenciar a vida
e respeitar os imperativos ecológicos.
Estruturado a partir do legado dos pioneiros da mitologia moderna
de Jung a Hilmann e Campbell, a 16ª Conferência Transpessoal
Internacional irá explorar a importância do mito na história
humana e na sociedade moderna. Como nos eventos anteriores da ITA,
o formato desses encontros combinará palestras, sessões
experienciais, rituais, música, dança e artes visuais.
Uma vez que 2004 estabelece o centenário de nascimento de Joseph
Campbell, o programa da conferência fará uma homenagem
a esse grande estudioso da mitologia e seu legado.
Nós desejamos a vocês um momento muito agradável
e produtivo.
Christina Grof e Stan Grof
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