Al Jardim - 28 Fevereiro 2009









 
 
DE STANISLAV GROF _____________
 
  Mensagem de Christina e Stanislav Grof

16ª Conferência Transpessoal Internacional da ITA - International Transpersonal Association

Tradução de Álvaro Jardim
 

"Somente uma nova visão espiritual - cósmica em suas dimensões e global em abrangência – pode salvar a civilização". _Vaclav Havel, Presidente da República Tcheca.


Prezados Amigos,

Nós gostaríamos de convidá-los para a 16ª Conferência Transpessoal, cujo tema principal é o papel da imaginação mítica na sociedade moderna. Já se passaram oito anos desde a última Conferência da ITA, que aconteceu em Manaus, Brasil, intitulada Tecnologias do Sagrado: Antiga, Aborígine e Moderna. Para muitos de nós, a exploração experiencial e teórica de vários caminhos de entrada no reino do sagrado ocorreu no poderoso ambiente da selva amazônica e numa atmosfera especial criada pela presença de muitos xamãs, curadores, professores espirituais e sérios buscadores, fazendo dessa conferência um evento verdadeiramente mágico.

Durante esse período recebemos um grande número de cartas de participantes entusiasmados, que consideraram o encontro de Manaus uma experiência transformadora. Com o passar dos anos, muitas pessoas manifestaram o interesse em participar de uma nova conferência. Infelizmente, os recursos financeiros da ITA, uma organização sem fundos lucrativos, criticamente dependente do rendimento de suas conferências e donativos, não foram suficientes para o lançamento de uma outra grande conferência.

Dois anos atrás, contribuições financeiras inesperadas de vários amigos generosos proveram a semente financeira para um outro encontro internacional. É graças a eles que podemos continuar a tradição das conferências da ITA, que agora dá oportunidade de continuar por mais de três décadas um intercâmbio cultural, de idéias e valores transpessoais. Esse encontro está inserido em um contexto mundial no qual a perspectiva transpessoal mostra-se cada vez mais relevante. Nos últimos anos, ações políticas e militares, especialmente danosas ao meio ambiente, foram implementadas de forma cada vez mais acentuada, gerando uma crise de proporções sem precedentes.

Negociações diplomáticas, medidas administrativas e legais, sanções econômicas e sociais, intervenções militares e outros esforços similares têm tido muito pouco sucesso em aliviar essa crise. Como um assunto ou fato, tais esforços têm freqüentemente produzido mais problemas do que solução. Cada vez tem ficado mais claro o porque eles têm falhado. As estratégias usadas para aliviar essa crise estão enraizadas na mesma ideologia que, inicialmente, as criou.

Em última análise, a atual crise global é acima de tudo uma crise psicoespiritual; ela reflete o nível de evolução de consciência da espécie humana. É, portanto, difícil de imaginar que ela poderia ser resolvida sem uma radical transformação interna da humanidade em grande escala e ser elevada a um nível de maturidade emocional e consciência espiritual. É nesse processo de auto-aprimoramento que a visão transpessoal pode desempenhar um importante papel.

Três séculos de revolução científica e industrial produziu triunfos tecnológicos jamais pensados, como por exemplo, a energia nuclear, viagens espaciais, laser, computadores, TV em cores, quebra do código genético, as maravilhas da medicina moderna e muitas outras. Entretanto, ao curso da segunda metade do século vinte, tornou-se cada vez mais óbvio que esse progresso embriagante tem um perigoso lado sombrio. O custo para o rápido acúmulo de conhecimento científico e triunfos tecnológicos tem sido a perda dos valores espirituais e a progressiva alienação – alienação de nosso corpo, de cada um de nós, da natureza e da ordem cósmica. O aumento da violência e do comportamento viciado, a destruição dos recursos não-renováveis, a devastação ecológica e a ameaça da poluição industrial ao princípio básico da vida nesse planeta têm sido a conseqüência lógica do desencantamento da visão de mundo da civilização tecnológica.

Entre os poucos avanços promissores, nessa situação que se apresenta desmotivadora, as descobertas na psicologia profunda têm minado a hegemonia da visão de mundo materialista mecanicista pela redescoberta das dimensões da realidade numinosa oculta. Essa nova perspectiva está intimamente conectada ao reconhecimento dos elementos míticos governantes das dinâmicas do inconsciente da psique humana. Os primeiros indícios dessa abordagem aparecem nos trabalhos de Freud através de uma associação vaga entre processos internos e determinados conceitos, tais como o complexo de Édipo, Eros e Tanatos e se estendendo a uma forma madura e plena na exploração e especulação teórica de C. G. Jung.

As pesquisas pioneiras de Jung levaram-no à descoberta do inconsciente coletivo e seus princípios governantes ou arquétipos. Embora ele, inicialmente, concebesse os arquétipos como um fenômeno trans-individual, um fenômeno essencialmente intrapsíquico, seus estudos posteriores de eventos sincrônicos convenceram-no que eles eram universais em natureza e desempenhavam um papel igualmente crítico em modelar o processo no mundo externo. Essas observações desafiaram as pedras angulares da visão de mundo mecanicista – a dicotomia cartesiana entre o observador subjetivo e o mundo objetivo; e a crença no determinismo e na causalidade linear como princípios explanatórios exclusivos. Essas observações descortinaram a possibilidade de fazer uma ponte entre a espiritualidade e a ciência e iniciar o processo de re-encantamento do mundo.

Uma das mais importantes conseqüências da pesquisa de Jung foi a nova forma radical de compreensão da natureza e função do mito. Seu avanço inicial de compreensão nessa visão foi, posteriormente, desenvolvido pelos seus estudantes e seguidores como Marie-Louise von Franz, Joseph Campbell, Mircea Eliade, James Hillman, Marion Woodman e outros. Esses estudiosos têm mostrado que os mitos não são produtos fictícios da fantasia humana, mas sim reflexos de forças arquetípicas, princípios organizadores cósmicos primordiais, que formam e informam a dinâmica da psique. Constituem eventos e movimentos na história humana e processos evolucionários na natureza.

No decorrer do século vinte, as descobertas da psicologia arquetípica, validadas pelas descobertas da moderna pesquisa da consciência, revolucionaram o pensamento em muitas áreas da vida moderna – psiquiatria, psicologia, psicoterapia, biologia, antropologia, filosofia, teologia, história, economia e política. A visão transpessoal do mundo mostrou-se compatível com a promoção da quebra de paradigma em várias disciplinas científicas, em particular, as implicações filosóficas da física quântica relativista, a holografia ótica e a teoria dos sistemas.

Em razão da grande autoridade que a ciência alcançou na civilização industrial, graças aos muitos triunfos práticos que mudaram, profundamente, nossa vida diária e transformaram a face de nosso planeta, a emergência originária dessa visão de mundo, capaz de integrar o melhor da espiritualidade com o melhor da ciência, é um pré-requisito para superar a alienação da humanidade e o desencantamento do cosmos, dois produtos da visão de mundo materialista, que residem no núcleo da atual crise global. Desse modo, a compreensão do papel das forças arquetípicas na base do processo na psique humana e no mundo material é de crítica importância para o futuro da humanidade e da vida no planeta.

Joseph Campbell, conhecido como um dos maiores mitólogos do século vinte, freqüentemente enfatizava em suas palestras que a vida de todas as civilizações do passado têm sido moldadas e informadas – desconhecido de sua comunidade – pelas dinâmicas arquetípicas; cada uma delas tem um mito ou mitos regentes. Campbell acreditava que era essencial identificar e compreender o mito condutor da sociedade moderna e apoiar a emergência do novo mito, que poderia inspirar a coexistência pacífica, a tolerância, a cooperação e sinergia de vários grupos humanos, bem como reverenciar a vida e respeitar os imperativos ecológicos.

Estruturado a partir do legado dos pioneiros da mitologia moderna de Jung a Hilmann e Campbell, a 16ª Conferência Transpessoal Internacional irá explorar a importância do mito na história humana e na sociedade moderna. Como nos eventos anteriores da ITA, o formato desses encontros combinará palestras, sessões experienciais, rituais, música, dança e artes visuais. Uma vez que 2004 estabelece o centenário de nascimento de Joseph Campbell, o programa da conferência fará uma homenagem a esse grande estudioso da mitologia e seu legado.

Nós desejamos a vocês um momento muito agradável e produtivo.

Christina Grof e Stan Grof








   
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