Al Jardim
16 Novembro 2008



   
De Stanislav Grof ____________  
 


 
  Quando o impossível acontece: aventuras em realidades não-ordinárias.

Stanislav Grof, M. D., Ph. D.


Tradução de Álvaro Jardim
 
 


Há quase metade de um século atrás, uma experiência poderosa, que durou apenas algumas horas, mudou profundamente minha vida pessoal e profissional. Como era um jovem residente de psiquiatria, com apenas poucos meses após minha graduação na escola de medicina, fui voluntário para um experimento com LSD, uma substância com notáveis propriedades psicoativas, que foram descobertas pelo químico suíço Albert Hofmann, no Laboratório Farmacêutico Sandoz, em Basel.

Esta sessão despertou em mim um interesse vitalício intenso em estados não-ordinários de consciência, em particular o seu período culminante, durante o qual eu tive uma experiência indescritível e esmagadora de consciência cósmica. Desde aquela época, a maioria das minhas atividades clínicas e de pesquisa consistiu de explorações sistemáticas do potencial terapêutico, transformativo e evolucionário destes estados. As cinco décadas que dediquei à pesquisa da consciência têm sido para mim uma aventura extraordinária de descoberta e autodescoberta.

Fiquei, aproximadamente, a metade deste tempo conduzindo terapia com psicodélicos, primeiro na Tchecoslováquia, no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica em Praga e, também, no Centro de Pesquisa Psiquiátrica Maryland, em Baltimore, onde participei do último programa americano sobrevivente de pesquisa psicodélica. Desde 1975, minha esposa Christina e eu trabalhamos com respiração holotrópica, um método poderoso de terapia e auto-exploração, que juntos desenvolvemos no Instituto Esalen, em Big Sur, CA. O trabalho de respiração holotrópica induz mudanças profundas na consciência, através de uma combinação de meios muito simples, sem a utilização de drogas – respiração mais rápida, música evocativa e uma forma especial de trabalho corporal. Através dos anos, Christina e eu temos também apoiado muitas pessoas passando por episódios espontâneos de estados não-ordinários de consciência – crises espirituais ou “emergências espirituais”, como as denominamos.

Em adição, estive perifericamente envolvido em muitas disciplinas relacionadas aos estados não-ordinários de consciência. Fiquei muito tempo trocando informações com antropólogos e participei de cerimônias sagradas das culturas nativas em diferentes partes do mundo com e sem a ingestão de plantas psicodélicas, tais como o peiote, a ayahuasca e os cogumelos mágicos. Isto envolveu o contato com vários curadores e xamãs norte-americanos, mexicanos, sul-americanos e africanos. Também tenho tido um extensivo contato com representantes de várias disciplinas espirituais, incluindo o Budismo Vipassana, Zen e Vajrayana, a Siddha Yoga, o Tantra e a Ordem Beneditina Cristã.

Uma outra área que tem recebido muito de minha atenção tem sido a tanatologia, uma jovem disciplina que estuda as experiências próximas da morte e os aspectos psicológicos e espirituais da morte e do morrer. Nos finais dos anos 60 e no início dos anos 70, participei de um grande projeto de pesquisa que estudava os efeitos da terapia psicodélica em indivíduos morrendo de câncer. Também devo adicionar que tenho tido o privilégio do conhecimento e da experiência pessoal com alguns dos grandes médiuns e parapsicólogos de nossa era, pioneiros de laboratórios de pesquisa da consciência e terapeutas que induzem estados não-ordinários de consciência.

Conduzindo esta pesquisa, fui diariamente bombardeado com experiências e observações, para as quais meu treinamento médico e psiquiátrico não haviam me preparado. Como era um material de fato, fui experienciando e vendo coisas que, no contexto da visão científica de mundo que fui educado, eram considerados impossíveis e sem possibilidade de acontecer. E então, aquelas coisas impossíveis, obviamente, foram acontecendo o tempo todo. Finalmente, cheguei a um ponto que me tornei convencido de que os dados da pesquisa de estados não-ordinários representam um desafio conceitual crítico para o paradigma científico que atualmente domina a psicologia, a psiquiatria e a psicoterapia. Expressei esta opinião numa série de livros profissionais, tais como Além do Cérebro, A Aventura da Autodescoberta, O Jogo Cósmico e Psicologia do Futuro. Cheguei à conclusão que o pensamento, nestas disciplinas, requer uma revisão radical que, em sua natureza e escopo, poderia parecer com o cataclismo conceitual que os físicos newtonianos tiveram que enfrentar nas primeiras três décadas do século XX.

As observações desafiadoras da visão de mundo, que assimilei da cultura desenvolvidas e herdadas de meus professores acadêmicos, vieram de muitas áreas e fontes diferentes. A maioria destas informações veio de experiências extraordinárias reportadas pelos meus clientes que passaram por terapia psicodélica, participantes de nossos workshops e treinamentos de trabalho de respiração holotrópica e pessoas experienciando emergências espirituais. Um fator crítico na transformação da minha visão de mundo foram os estados não-ordinários de várias espécies que eu mesmo experienciei e aqueles que minha esposa Christina compartilhou comigo.

De qualquer modo, nem toda evidência, envolvida na mudança profunda da minha visão de mundo, estava diretamente relacionado aos estados especiais de consciência. Através dos anos, muitas coisas extraordinárias aconteceram em nossa vida diária, que significativamente contribuíram para esta transformação. O denominador comum de todos estes eventos era o fato de que eles não deveriam ter acontecido se o universo fosse retratado por meio da ciência tradicional – um sistema material estritamente determinista governado por cadeias de causas e efeitos. Isto foi o que inspirou o título deste livro.

Quando o Impossível Acontece: Aventuras em Realidades Não-Ordinárias é uma coleção de estórias que descreve vários eventos em minha vida pessoal e profissional que me forçaram a abandonar minha perspectiva científica materialista e cética na vida e abraçar as filosofias espirituais Orientais e os ensinamentos místicos do mundo. Elas também suscitaram em mim um grande respeito pelos rituais, pela vida espiritual e pelas tradições de cura das culturas nativas, postas de lado como produtos de superstição primitiva.

As estórias, no livro, estão dispostas em várias categorias. A primeira destas categorias de episódios, que envolvem um fenômeno notável de grande significado teórico, foi descrito por C. G. Jung como sincronicidade. Ele usou este termo pelas coincidências altamente implausíveis, conectando experiências intrapsíquicas com eventos no mundo material. O fato, que o mundo da matéria pode entrar dentro de uma interação brincalhona com a psique humana, mina completamente a base do paradigma cartesiano newtoniano e a visão de mundo materialista monística. A existência de sincronicidade viola o princípio da causalidade linear, a pedra angular do pensamento científico Ocidental. Ela abole a suposição da base metafísica, mantida pela comunidade acadêmica Ocidental, que a consciência e a matéria são duas entidades separadas, que a matéria é primária e a consciência é um epifenômeno e que os eventos no mundo são governados exclusivamente por cadeias de causas e efeitos.

A segunda categoria de estórias desafia a compreensão científica atual da natureza da memória e seus limites. Elas mostram que cada um de nós traz na psique inconsciente não somente a memória do seu nascimento e o trauma associado a ele, mas também memórias de nossa vida pré-natal e o início da vida embrional, nossa concepção e a das vidas de nossos ancestrais humanos e animais. Algumas das estórias nesta categoria apresentam ainda um problema conceitual mais admirável, depois que eles sugerem a existência da memória absolutamente sem nenhum substrato material. Elas descrevem seqüências experienciais mostrando eventos da história humana armazenadas nos arquivos do inconsciente coletivo, como antevisto por C. G. Jung, memórias de vidas passadas e identificação experiencial com membros de outras espécies.

A terceira categoria de estórias foca sobre um fenômeno tradicionalmente estudado pelos parapsicólogos – telepatia e clarividência, psicometria, experiências de reinos astrais, comunicação com entidades desencarnadas e espíritos guias, encontros com seres arquetípicos, canalização, fenômeno de poder da mente sobre a matéria (siddhis) e experiências extra corpórea durante as quais a consciência separada do corpo percebe próximo ou em lugares distantes. Como a sincronicidade, estas observações revelam a existência de “fenômenos anômalos” que podem no futuro levar a uma revisão radical da visão de mundo científica e suas suposições metafísicas básicas.

A última categoria de estórias são aquelas que desafiam as suposições mais fundamentais da corrente de psiquiatras relacionados à natureza dos episódios psicóticos, atualmente consideradas manifestações de sérias doenças mentais. Estas considerações sugerem que muitos episódios de estados não-ordinários de consciência são crises de abertura espiritual (“emergências espirituais”), ao invés de episódios psicóticos e que eles têm um grande potencial transformativo e de cura. Esta seção também inclui considerações de resultados positivos surpreendentes de abordagens altamente heterodoxas e controversas para tratamento. Elas descrevem avanços terapêuticos salientando mecanismos psicodinâmicos que não poderiam fazer nenhum sentido para os psiquiatras tradicionais.

Este livro é uma exposição muito pessoal, que revela muitos detalhes íntimos de minha vida privada e profissional. A maioria dos clínicos e pesquisadores poderia hesitar em revelar tanta informação subjetiva por causa de sua preocupação de que isto poderia prejudicar sua reputação científica. A razão que compartilho com tanta honestidade as experiências e tribulações de minha investigação pessoal é que eu quero que esta informação facilite a luta e as incertezas das pessoas envolvidas em sérias auto-explorações e as ajude a evitar os erros e armadilhas que são partes integrais de qualquer aventura dentro de novos territórios inexplorados.

Espero que os leitores de mente aberta vejam as estórias pessoais que compartilho nestas minhas memórias de experiências não convencionais, como um depoimento da minha paixão com a qual persigo a busca pelo conhecimento e sabedoria ocultas nos recessos profundos da psique humana. Se este livro provê informação útil e assistência tranqüila a uma pequena fração de milhares de pessoas que experienciam estados não-ordinários de consciência e exploração de realidades transcendentes, meu sacrifício de reserva pessoal não tem sido em vão.




 
 




   
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