Al Jardim
9 Agosto 2008



   
 
 
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Falando sobre Stanislav Grof

Álvaro Jardim




Hoje resolvi tentar expressar o que penso e sinto em relação à teoria e ao trabalho desenvolvidos por Stanislav Grof, e, também, como o vejo como ser humano, como pessoa.

Eu o vi e assisti falar, pela primeira vez, em Belo Horizonte - MG, em 1978, e fiquei bastante impressionado com o enfoque de sua teoria e a grandeza do Congresso realizado na ocasião, aqui no Brasil. Mas só voltei a vê-lo em 1996, em Manaus, durante a 16ª Conferência da ITA (International Transpersonal Association), onde ele dirigiu um mega trabalho de Respiração Holotrópica e apresentou uma palestra intitulada "Tecnologias do Sagrado: o Antigo, o Aborígine e o Divino", além de participar de mesas redondas, debates e de ser o Coordenador do Programa.

Nessa época, eu vinha passando por uma profunda transformação, após ter conhecido e estar me submetendo à prática do trabalho de Respiração Holotrópica, que é uma técnica desenvolvida por Stan e Christina Grof, e, também, por estar participando do programa do Grof Transpersonal Training.

Comecei, então, a partir de 1997, a ter um contato mais próximo com Stan Grof, a conversar mais com ele e aprender a viver o meu processo interno. Fiz parte do grupo de facilitadores que trabalhou com ele, em algumas ocasiões. Coordenei trabalhos em que eu o ouvia, ciceroniava, trocava idéias e nos divertíamos também. Sinto-me, portanto, capaz de poder expressar um pouco do que sinto, do que aprendi, da troca de idéias e do que continuo aprendendo com este ser humano simples, humilde, leal, amoroso, corajoso, inquiridor, muito atento, perspicaz e de muito bom humor.

Quem começa a se enveredar pelos caminhos de sua teoria e prática, de mais de 40 anos de pesquisa, de níveis não-comuns de consciência, vai iniciar uma jornada de autodescoberta, da forma mais segura que conheço. Todo o seu trabalho é experiencial, isto é, precisa ser vivido para ser processado, elaborado, integrado e compreendido. Mas o mais importante é que todo o seu trabalho é estruturado e realizado a partir de um set e setting especiais, obedecendo a acordos éticos, assumidos pelos profissionais treinados por ele.

Mas o que vem a ser este set e setting especiais? O set inclui a expectativa psicológica do sujeito, o conceito de sitter ou guia da natureza da experiência, a concordância quanto ao objetivo do procedimento experiencial e a preparação para a sessão. O setting se refere ao meio físico e interpessoal real, as circunstâncias concretas nas quais a experiência ocorre.

Outra qualidade indispensável e essencial do trabalho com estados holotrópicos de consciência é a fase de integração, que pode ser realizada com arte terapia, mandala, caixa de areia, dança, trabalho com argila, relato escrito e oral da experiência e etc. De nada adiantaria ter experiências, em outros níveis de consciência, sem integrá-las, de uma maneira adequada, e que fizesse sentido para a vida do indivíduo que delas participa.

Após todos esses anos de pesquisa clínica, com mais de 4.000 casos registrados de clientes tratados com LSD (a maioria em condições controladas de laboratório) e mais de 30.000 sessões de trabalho com a Respiração Holotrópica conduzidas com milhares de pessoas em todos os continentes do planeta, Stan Grof vem publicando através de seus 16 livros escritos, em várias línguas, o resultado de suas modernas pesquisas de consciência, que trazem sérias e profundas implicações para a Psiquiatria, para a Psicologia e para a Psicoterapia, pontuando, de forma sistemática e compreensiva, as áreas que requerem uma revisão radical, sugerindo a direção e a natureza das mudanças necessárias. Essa revisão das idéias básicas sobre a consciência e a psique humana, proposta por Stan Grof, traria mudanças a serem promovidas na nossa forma de pensar, incidindo em várias categorias tais como: a natureza da psique e as dimensões da consciência, a natureza e a arquitetura das desordens emocionais e psicossomáticas, os mecanismos terapêuticos eficazes, a estratégia da psicoterapia e da auto-exploração, o papel da espiritualidade na vida humana e a natureza da realidade: psique, cosmo e consciência.

Todo o seu trabalho e participação ao implantar, juntamente com um grande número de cientistas de alto nível, um novo paradigma, que vem complementar o paradigma newtoniano-cartesiano, pode ser acompanhado, em parte, nos livros escritos por Fritjof Capra, tais como "O Ponto de Mutação" e "Sabedoria Incomum". Grof é citado e respeitado pelos cientistas de várias áreas do conhecimento pela profundidade e alcance de suas idéias. A exclusão e a censura sistemática dos resultados da pesquisa moderna de consciência, com estados holotrópicos, tem sido a fórmula utilizada pelos meios, dito científicos, de manter a filosofia materialista monística, num processo muito mais cientificista do que de realmente produzir ciência.

Quando cada um de nós, seres humanos, pode se aventurar no processo do caminho da autodescoberta, de uma forma segura e apropriada como Stan propõe em sua teoria e prática, através do potencial evolucionário, transformador e de cura internos, é que cada um de nós pode compreender o verdadeiro alcance e profundidade do que realmente somos. Há uma contribuição maior que alguém possa dar à humanidade do que indicar e dar todas as ferramentas necessárias para que as pessoas possam se conhecer a si mesmas, se auto-transformar e evoluir, de forma adequada a princípios éticos e morais?

O verdadeiro conhecimento vem de níveis não-comuns de consciência e a pesquisa desenvolvida por Stan possibilita o desenvolvimento interno e, conseqüentemente, externo, de todos os que se aventuram, com seriedade e de forma sistemática, em seus processos, apoiados por métodos eficazes, advindos da psicologia humanista e transpessoal. Uma profunda transformação emocional e espiritual se fazem necessárias, através de um processo de morte, renascimento e reintegração do ego, onde são trabalhados o apego, a ignorância e o desejo.

Somos todos, em nossos processos individuais e coletivos, partícipes de uma unidade maior, permeada por uma consciência em evolução, uma consciência quase celular onde as fronteiras no universo são arbitrárias e que cada um de nós é idêntico a toda a teia da existência, onde não podemos fazer nada à natureza sem provocar, ao mesmo tempo, algo a nós mesmos, como conseqüência. Essa consciência pode levar à abertura espiritual e, também, a uma direção necessária, em nível coletivo, à sobrevivência da espécie.

Através do trabalho que venho desenvolvendo comigo, no meio clínico, e na especialização de profissionais de várias áreas do conhecimento percebo a importância desse profissional, em que, não só, vejo a amplitude de alcance de suas pesquisas e obras escritas, mas através do seu exemplo de vida, como cientista, como professor, como amigo e ser humano.

1° de Julho de 2003.

PARABÉNS, STAN, pelos seus 72 anos muito bem vividos e por ser um BENEMÉRITO DA HUMANIDADE.

SAÚDE, AMOR e PAZ!


AJ



 
 
 




   
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