Estados de consciência: o comum e o holotrópico
Álvaro Jardim
Publicado na coluna Opinião, do jornal "O POPULAR",
Goiânia - GO, em 17/07/02.
Dentro da visão teórica e prática do Dr. Stanislav Grof, MD, eminente
cientista e professor acadêmico, a psicologia e a psiquiatria tradicionais
têm estabelecido limites para o estudo destas ciências e para o que
elas têm denominado de científico, tendo como base o paradigma newtoniano-cartesiano.
Estes campos de estudo consideram estados ditos "normais" ou ordinários,
ou ainda, usuais de consciência quando experienciamos nós próprios
como existindo, dentro de limites do corpo físico, e a nossa percepção
do meio em que vivemos está restrita ao alcance dos cinco sentidos.
Tanto nossa percepção interna quanto nossa percepção externa estão
confinadas aos limites de tempo e espaço. Podemos nos lembrar do passado
e o futuro pode ser imaginado ou fantasiado, mas tanto um como o outro
não estão disponíveis para uma experiência direta. Quando vivenciamos
o transpessoal uma ou mais das limitações descritas acima parecem
ser transcendidas. Isto pode ocorrer quer através de técnicas (antigas
e aborígines e, também, psicológicas) utilizadas para alcançar esta
transcendência, ou através de drogas, ou, ainda, de forma espontânea.
Se tivermos como base a discussão acima, as experiências transpessoais
podem ser definidas como expansões experienciais ou extensões da consciência
além dos limites usuais, ou seja, ditos "normais" ou ordinários do
ego corpóreo dos cinco sentidos e além dos limites de tempo e espaço.
Estas experiências cobrem um alcance extremamente amplo de fenômenos,
que ocorrem em diferentes níveis de realidade, pois num certo sentido,
todo o espectro de experiências transpessoais tem a dimensão da própria
existência.
É lógico que para falarmos sobre estados incomuns
ou não usuais, ou ainda, não ordinários de consciência teríamos que
trazer um conceito que Grof, em 1992, introduziu e cunhou o termo
holotrópico, após trinta anos de exaustivas pesquisas de estados incomuns
de consciência. Diz ele: "esta palavra composta significa literalmente
orientado para a totalidade/inteireza ou indo em direção à totalidade/inteireza
(do grego holos = totalidade/inteireza e trepein = indo em direção
a algo)". Ele sugere que: "no estado de consciência ordinário, do
cotidiano, identificamo-nos com apenas uma pequena fração de quem
realmente somos. Nos estados holotrópicos, podemos transcender as
fronteiras restritas do ego corporal e reivindicar nossa identidade
total".
O interesse primeiro de Grof objetivava enfocar os aspectos heurísticos
desses estados, ou seja, de como eles podem contribuir para nossa
compreensão da natureza da consciência e da psique humana.
Na realidade, a consciência pode ser profundamente modificada por
uma variedade de processos patológicos. Só para darmos alguns exemplos,
citamos aqui os traumas cerebrais, por intoxicações com venenos químicos,
por infecções, ou por processos degenerativos ou de circulação no
cérebro. É evidente que tais condições podem resultar em profundas
mudanças mentais, que poderiam ser qualificadas à categoria de "estados
incomuns, ou não comuns, ou não usuais, ou ainda, não ordinários de
consciência". Mas, para nossa colocação aqui, são irrelevantes os
danos causados por estes traumas cerebrais, que seriam os "delírios
triviais" ou "psicoses orgânicas", mas que não deixariam de ser importantes
clinicamente. Quem sofre de tais estados encontram-se desorientadas.
Elas não sabem quem são, onde estão ou que dia é, além de suas funções
intelectuais se apresentarem danificadas de modo significativo e,
ainda, sofrerem de amnésia após suas experiências.
Os estados que Grof denominou holotrópico são um grande e importante
subgrupo de estados não comuns de consciência, que apresentam uma
diferença bastante significativa dos restantes e traz uma fonte inestimável
de novas informações sobre a psique humana, tanto na saúde quanto
na doença. Além disso, ele tem um notável potencial terapêutico e
transformador. Grof diz, ainda, "achei difícil acreditar que a psiquiatria
contemporânea não reconheça suas especificidades e não tenha terminologia
especial para elas".
Michael Harner (1980), que é um antropólogo americano bem conceituado
no meio acadêmico, aponta à psiquiatria ocidental uma visão tendenciosa
grave, através de dois modos bem significativos:
- considera, como a única visão correta, a sua própria visão da psique
humana e da realidade;
- considera apenas as experiências e observações realizadas nos estados
comuns ou ordinários de consciência.
Grof afirma ainda que: "a falta de interesse e o pouco caso dos psiquiatras
em relação aos estados holotrópicos resultou em uma abordagem culturalmente
insensível e uma tendência a considerar patológicas todas as atividades
que não podem ser compreendidas, no contexto estreito do paradigma
materialista monístico. Isto inclui a vida ritual e espiritual de
culturas antigas e pré-industriais e toda a história espiritual da
humanidade. Ao mesmo tempo, essa atitude também ofuscou o desafio
crítico conceitual que o estudo de estados holotrópicos traz para
a teoria e a prática da psiquiatria".
Grof propõe, após mais de 40 anos de pesquisa com estados holotrópicos
de consciência, um estudo sistemático das experiências e observações
associadas aos estados holotrópicos porque tem a certeza de que tais
procedimentos recairiam em uma revisão radical de nossas idéias básicas
sobre a consciência e a psique humana, e a uma abordagem completamente
nova da psiquiatria, da psicologia e da psicoterapia.
Dentro desta visão descrita acima, que explanamos aqui de forma muito
resumida, estaremos a partir de agosto de 2002 ampliando e aprofundando
este assunto de impacto conceitual, com a chancela da Universidade
Católica de Goiás, e com a presença confirmada do Dr. Stanislav Grof,
que estará conosco ministrando uma das disciplinas, em um curso de
Pós-Graduação Lato Sensu 2002, Especialização em Psicologia Transpessoal
Aplicada.
Referências Bibliográficas:
Grof, S. Psicologia do Futuro: Lições das Pesquisas
Modernas de Consciência. Niterói, RJ: Heresis, 2000.
Grof, S. A Aventura da Autodescoberta. São Paulo:
Summus, 1997.
Harner, Michael. O Caminho do Xamã. São Paulo:
Cultrix, 1995.