A liberação pela audição no plano pós morte: O livro tibetano da morte
Stanislav Grof, M.D., Ph.D.
Tradução de Evane Ferreira Júnior
A procissão funeral de Ani, em 1250 a.C, é mostrada neste papiro do Book of the Dead.
*from "Books of the Dead - Manuals for Living and Dying",
by Stanislav Grof
Edited by Thames and Hudson, 1994.
O Livro Tibetano da Morte, ou Bardo
Thödol é um texto funerário de origem muito
mais recente que seu correspondente Egípcio e tem incomparavelmente
mais consistência interna e congruência. Diferentemente
do Pert em hru, é um texto bem definido e homogêneo
do qual sabemos o autor e o tempo aproximado de sua origem. Apesar
de ser claramente embasado em material oral muito mais antigo, foi
primeiramente escrito no oitavo século a.D. e é atribuído
ao Grande Guru Padmasambhava. Este lendário mestre espiritual
introduziu o Budismo no Tibet e estabeleceu os fundamentos do Vajrayana,
um amálgama dos ensinamentos Budistas e elementos de uma tradição
indígena ancestral chamada Bon, que havia sido a principal
religião do Tibet antes da chegada de Padmasambhava.
Pouco se conhece com certeza sobre a religião pré-Budista
do Tibet; contudo, uma de suas características dominantes parecia
ser a preocupação com a continuação da
vida após a morte. Ela incluía elaborados rituais que
tinham por objetivo assegurar que a alma da pessoa morta fosse conduzida
seguramente para o além. Animais sacrificados, comidas, bebidas
e vários objetos preciosos acompanhavam o falecido durante
a jornada póstuma. Os ritos funerários eram particularmente
elaborados em conexão com a morte de um rei ou um nobre. Aqui
o sacrifício incluía imolação de companhias
humanas selecionadas, as cerimônias envolviam um grande número
de sacerdotes e oficiais da corte e duravam por vários anos.
Além de assegurar a felicidade do falecido no além,
também se esperava que esses ritos tivessem influência
benéfica sobre o bem-estar e fertilidade dos vivos.
Aspectos característicos da antiga religião Tibetana
original eram o culto aos deuses locais, especialmente as divindades
guerreiras e da montanha e o uso de estados de transe para atividades
oraculares. O Bon original tinha componentes anímicos e xamânicos
significativos. Após a chegada do Budismo no Tibet, ambos sistemas
religiosos coexistiram e apesar de sua natureza separada, mostraram
rica fertilização cruzada. Nas suas formas extremas,
é relativamente fácil de se distinguir o Budismo genuíno
e a religião Bon; contudo, na prática as duas foram
tão intimamente combinadas que nas mentes da maioria das pessoas
elas se fundiram em um único sistema de crenças. Os
elementos não-Budistas são particularmente proeminentes
no rito apavorante do sacrifício premeditado de alguém
aos demônios locais, praticado por certos iogues ascéticos,
e no notável Bardo Thödol.
O Bardo Thödol é um guia para a morte e o morrer, um manual
que auxilia quem partiu a reconhecer, com a ajuda de um lama competente,
os vários estágios do estado intermediário entre
a morte e o subseqüente renascimento e a obter liberação.
Os estados de consciência associados com o processo da morte
e renascimento pertencem a uma família maior de estados intermediários
ou bardos:
1. O estado bardo natural da existência intra-uterina
2. O Bardo do estado de sonho
3. O Bardo do equilíbrio arrebatado durante meditação
profunda
4. O Bardo do momento da morte (Chikhai Bardo)
5. O Bardo das ilusões cármicas que se seguem à morte (Chonyid Bardo)
6. O Bardo do processo inverso, o da existência sansárica
enquanto buscando pelo renascimento (Sidpa Bardo).
O Livro Tibetano da Morte está escrito como um guia para o
morrer; contudo, ele tem níveis adicionais de significado.
De acordo com os ensinamentos Budistas, morte e renascimento não
ocorrem somente em conexão com o óbito e subseqüente
começo de outra vida, mas em cada momento de nossa existência.
Os estados descritos no Bardo Thödol também podem ser
experimentados em estados meditativos durante prática espiritual
sistemática. Este importante texto é, portanto simultaneamente
um guia para o morrer, para o viver e para buscadores espirituais
sérios. Ele é uma de uma série de instruções
sobre seis tipos de liberação: liberação
através da audição, liberação através
do vestir; liberação através da visão,
liberação através da rememoração,
liberação através do paladar e liberação
através do toque.
As instruções sobre os diferentes tipos de liberação
foram formuladas por Padmasambhava e escritas por sua esposa. Padmasambhava enterrou estes textos nas colinas Gampo do
Tibet central, como foi feito com muitos outros textos e objetos sagrados,
chamados termas ou “tesouros ocultos”. Ele deu a transmissão
de poder para descobri-los aos seus vinte e cinco principais discípulos.
Os textos do Bardo Thödol foram mais tarde descobertos por Karma
Lingpa, que pertenceu à tradição Nyingma e estava encarnado em um desses discípulos. Eles têm
sido utilizados, por séculos, por estudantes sérios de
seus ensinamentos, como importantes guias para liberação
e iluminação.
O Bardo Thödol descreve as experiências que alguém
encontra no momento da morte (Chikhai Bardo), durante o período
de encarar as visões arquetípicas e ilusões cármicas
que se seguem à morte (Chonyid Bardo), e no processo
de buscar o renascer (Sidpa Bardo). Tradicionalmente, após
a morte e por um período de quarenta e nove dias depois disso,
esse texto tem sido cantado pelos mestres ou lamas para dar instruções
ao espírito do falecido sobre o que esperar no estado Bardo
e como utilizar as experiências para a liberação.
Chikhai Bardo: O bardo do momento da morte
O Chikhai Bardo descreve as experiências associadas
com o momento da morte. Seu aspecto mais característico é
uma sensação de perder o contato com o mundo familiar
das polaridades e entrar em um reino irreal de confusão. O
mundo lógico e ordenado que nós conhecemos da vida quotidiana
começa a se dissolver e com isso vem a sensação
de incerteza quanto a se estar obtendo a iluminação
ou se tornando insano. O Bardo Thödol discute a experiência
anunciando a morte iminente em termos dos diferentes elementos do
corpo.
A este Bardo pertencem experiências de peso, densidade, intensas
pressões físicas e progressiva perda de contato com
o mundo físico. Nesta situação, alguém
pode tomar refúgio na mente e tentar reafirmar-se de que ela
ainda está funcionando. Isto é descrito como “terra
mergulhando na água”. No estágio seguinte, as
operações da mente deixam de ser fluidas e a circulação
dos pensamentos é perturbada. A única forma de se relacionar
é através das emoções; para pensar em
alguém se ama ou se odeia. Os sentimentos de um frio viscoso
são substituídos por um calor abrasador. O Bardo Thödol
refere-se a essa experiência como “água mergulhando
no fogo”. Então as emoções vívidas
se dissolvem e a atenção move-se para longe dos objetos
de amor e ódio; o ser inteiro parece ter sido pulverizado em
átomos. Esta experiência de “fogo mergulhando no
ar” cria um estado de abertura para o encontro seguinte com
a luminosidade cósmica.
No verdadeiro momento da morte, se pode ter uma esmagadora visão
do Dharmakaya, ou a “Límpida Luz Primordial
da Realidade Pura”. É como se toda a existência
repentinamente aparecesse em sua totalidade absoluta brilhando como
uma luz eterna por nascer. Nessa experiência, todas as dualidades
são transcendidas – agonia e êxtase, bem e mal,
beleza e feiúra, calor ardente e frio congelante, todas coexistem
em um todo indiferenciado. Em última análise, o Dharmakaya é idêntico à própria consciência
do observador, que não nasce nem morre e é em essência
a Luz Imutável.
De acordo com o Bardo Thödol, se alguém reconhece esta
verdade e foi preparado por práticas sistemáticas para
a enormidade dessa experiência, tal situação oferece
uma oportunidade única para liberação espiritual
instantânea por render a ela a própria individualidade.
Aqueles que se deixam atemorizar e afastam-se do Dharmakaya,
terão outra chance imediatamente após a morte quando
a “Límpida Luz Secundária” clarear sobre
eles. Se eles também perderem essa oportunidade de dissolução
completa de suas individualidades, a força de seus carmas os
atrai implacavelmente para dentro de uma complicada seqüência
de aventuras espirituais com um panteão inteiro de deidades
felizes e iradas, durante as quais suas consciências se tornarão
progressivamente mais separadas da luz libertadora à medida
que se aproximam de outro renascimento. Estas são as experiências
descritas no segundo e terceiro bardo.
Chonyid Bardo: O bardo da experiência da realidade
As experiências no Chonyid Bardo consistem
nas sucessivas visões de uma rica panóplia de presenças
divinas e demoníacas que alguém encontra durante sua
jornada do momento da morte ao momento da busca do renascimento. Nos
primeiros cinco dias deste bardo surgem as gloriosas imagens das cinco
Deidades Pacíficas. Estas são os Budas Dhyani transcendentais, ou Tathagatas, envolvidos em brilhantes
luzes de diferentes cores – Vairocana (Buda Supremo
e Eterno), Akshobhya (Buda Imóvel), Ratnasambhava (Buda do Nascimento Precioso), Amithaba (Buda da Luz Infinita)
e Amoghadsiddhi (Buda do Sucesso Infalível). Eles
aparecem com seus assistentes, Bodhisattvas masculinos e femininos.
No sexto dia, todos os Budas Dhyani surgem de uma vez com
seus assistentes, juntos com os quarto Guardiões de Portais
coléricos, ou irados, e suas shaktis femininas ou dakinis,
os Budas das seis lokas ou reinos nos quais se pode renascer,
e um número adicional de figuras divinas, num total de quarenta
e duas deidades. Seus brilhos estão em agudo contraste com
a sedução das luzes entorpecentes e ilusórias
representando os seis lokas. No sétimo dia, cinco
Deidades Detentoras do Conhecimento surgem dos reinos paradisíacos
com suas dakinis, inumeráveis heróis e heroínas,
guerreiros celestiais, e deidades protetoras da fé. Esplendores
de luzes coloridas emanando de seus corações competem
com a torpe luz do tiryaloka, o reino dos animais, ou brutais
criaturas sub-humanas.
As emoções que podem nos atrair para as lokas individuais
são: medo e terror carmicamente determinados (devaloka),
raiva violenta (narakaloka), egotismo (manakaloka),
apego (pretaloka), inveja e ciúme (asuraloka);
o renascimento no tiryaloka é descrito no Bardo Thödol
como um resultado da “influência das ilusões das
tendências de alguém”.
O período entre o oitavo e o décimo quarto dia é
o tempo do surgimento das Deidades Coléricas ou Iradas. As
figuras demoníacas que se manifestam entre o oitavo e o décimo
segundo dia, tão terríveis quanto possam ser, são
na verdade os aspectos obscuros dos Budas transcendentais. No décimo
terceiro dia, os Kerimas, os Oito Coléricos, e os
cabeças-de-animal Htamenmas emergem de dentro dos
profundos reinos da psique. No décimo quarto dia surge um rico
arranjo de deidades, entre elas Quatro Guardiãs de Portais
Femininas com cabeças de animais e outras poderosas deusas
theriomóficas e yoguinis.
Para os não preparados e não iniciados, as deidades
coléricas são uma fonte de terror e temor abismal. Contudo,
aqueles familiarizados com estas imagens a partir de estudos prévios,
preparados para elas por intensa prática espiritual, estariam
aptos a reconhecê-las e perceber que elas são essencialmente
imagens vazias de suas próprias mentes. Eles estarão
aptos a unir-se a elas e atingir o Estado Búdico (trad. de Buddhahood).
Sidpa Bardo: O bardo
da busca do renascimento
Aqueles que perderam a oportunidade da liberação nos
dois primeiros bardos têm que encarar este último estágio
de estado intermediário. Após terem desmaiado devido
ao medo no Chonyid Bardo, eles agora despertam em
uma nova forma – o corpo bardo. O corpo bardo difere daquele
grosseiro que conhecemos de nosso quotidiano. Ele não é
composto de matéria e tem muitas qualidades notáveis.
É dotado com o poder de movimento desimpedido e pode penetrar
através de objetos sólidos.
Aqueles que existem na forma do corpo bardo podem aparecer e desaparecer à vontade, viajar instantaneamente a qualquer lugar na terra
e mesmo até o Monte Meru, a montanha cósmica sagrada.
Eles podem mudar de tamanho e forma, replicar sua forma, manifestar-se
simultaneamente em mais de um local. Neste ponto pode parecer a alguém
que ele se encontra no comando de poderes cósmicos milagrosos;
aqui o Bardo Thödol faz uma advertência muito séria
a qualquer um que se permita sentir desejo por essas forças
e apegar-se a elas.
A qualidade de experiências neste bardo – o grau de felicidade
ou miséria – depende do registro cármico da pessoa
envolvida. Aqueles que acumularam muito carma ruim serão atormentados
por eventos assustadores, como demônios comedores de carne ou rakshasas balançando armas, terríveis bestas
predadoras e forças elementais furiosas da natureza. Estas
podem ser o encontro com rochas que se chocam e destroem-se, mares
transbordantes de raiva, fogos roncantes, fendas e precipícios
ominosos. Aqueles que acumularam méritos cármicos irão
experimentar vários prazeres deliciosos, enquanto que aqueles
com carma neutro irão encarar o aborrecimento incolor e a indiferença.
O culminar das experiências no Sidpa Bardo é a cena do julgamento, durante a qual o Senhor e Juiz da Morte,
cujo nome é Yama Raja ou Dharma Raja, examina
as ações passadas do indivíduo de um ponto de
vista cármico com o auxílio de seu espelho contador
de histórias. Ele então designa a pessoa de acordo com
seus méritos e débitos a um dos seis lokas ou reinos
nos quais alguém pode renascer – o reino dos deuses,
dos asuras beligerantes, seres e bestas sub-humanos, humanos, fantasmas
famintos, ou inferno.
Quando as luzes dos seis lokas estão surgindo na pessoa
neste estágio da jornada bardo, pode ser feita uma tentativa
para fechar a porta do útero e prevenir uma reencarnação
desfavorável. O Bardo Thödol sugere várias abordagens
para esta finalidade. Pode ser útil a contemplação
da divindade tutelar ou meditar sobre a pura luz; outras possibilidades
são perceber o vazio essencial de todas as aparições
sansáricas ou concentrar na corrente do carma bom. Alguém
pode evitar os fortes sentimentos experimentados neste momento através
das figuras dos futuros pais que são percebidos como corpos
nus em união sexual. Em concordância com a moderna psicologia
profunda da morte, estas emoções tomam a forma da atração
pelo pai do sexo oposto e repulsão ou raiva contra a figura
paterna do próprio sexo.
Se todas as oportunidades de libertação tiverem sido
perdidas, a pessoa poderá ser irresistivelmente direcionada
por ilusões vívidas e o renascimento se seguirá
invariavelmente. Com a devida orientação, o desafortunado
indivíduo ainda tem uma última esperança: com
a devida orientação, ele ou ela pode ainda ter alguma
influência sobre a escolha do útero no qual irá
renascer. Com o ambiente certo e apoio, a nova vida pode oferecer
oportunidades para prática espiritual que proveria melhor preparo
para a próxima jornada através dos estados bardos.
A roda tibetana da morte e renascimento
O Panteão das Divindades Budistas Tibetanas do Bardo Thödol
Muitas religiões e culturas têm mitologias elaboradas
com vívidas descrições de deidades e demônios
bem como cenários complexos de vários reinos arquetípicos.
Contudo, nenhum deles se compara com a iconografia rica e meticulosa
do Budismo Tibetano. Ela também encontra sua expressão
no Bardo Thödol, que oferece descrições meticulosas
de um fantástico arranjo de deidades felizes e coléricas
e outros habitantes do plano pós-morte. Elas são descritas
com maravilhosa precisão relativa às suas aparências
gerais, características específicas, atributos simbólicos
e cores associadas.
Enquanto as experiências da Pura Luz Primária e Secundária
que caracterizam o Chikhai Bardo representam a energia
criativa cósmica e sua natureza pura e refletem de um modo
completamente amorfo toda a sua potencialidade de manifestar os infinitos
reinos do ser, a progressão através do dois Bardos remanescentes
revela uma crescente multidão de formas específicas.
No Chonyid Bardo, as cinco expressões primordiais
desta energia, ou os Buddhas Dhyani, surgem primeiramente
em seus aspectos felizes e gradualmente se desenvolvem em um maravilhoso
panteão de Deidades Guardiãs do Conhecimento, Coléricas,
Guardiãs de Portais, Yoginis dos Quatro Pontos Cardeais,
e um rico arranjo de outros seres arquetípicos. Simultaneamente
brilham as torpes luzes de diferentes cores, representando os seis lokas, ou reinos nos quais se pode renascer. O Sidpa
Bardo então traz a cena do Julgamento com Dharmaraja e seus auxiliares, bem como o intrincado cenário dos seis lokas e seus habitantes.
As Deidades pacíficas do Chonyid Bardo
Os cinco primeiros Budas primordiais são também chamados
de Tathagatas ou Jinas. Tathagata significa
literalmente “portanto ido”, ou aquele que se tornou um
com a essência do que é, e Jina se traduz como “vitorioso”. Ambos os termos são sinônimos
com o nome Buda que significa “o desperto”. Os cinco Tathagatas são os cinco principais modos de energia da natureza Búdica,
consciência plenamente desperta. Eles incorporam cinco qualidades
de sabedoria; tudo que é parte da existência –
seres viventes, locais ou eventos – está profundamente
conectado com e descrito em termos de um dos cinco. Por esta razão,
eles também são conhecidos como as cinco famílias.
Contudo, no mundo sansárico ou no estado de mente de uma pessoa
não-iluminada, eles aparecem como cinco venenos ou emoções
confusas. Esta situação é então representada
pelos seus aspectos coléricos.
Vairochana (Propagando a Semente Adiante) é o Buda do Reino Central. Ele
é branco e o espaço em que surge é azul; a deslumbrante
luz azul de Dharmdhatu que se irradia a partir de seu coração
compete com a torpe luz branca do reino dos deuses (devaloka).
Sentado em um trono de leão e abraçado pela Mãe
do Espaço do Paraíso, ele está segurando uma
roda de oito raios em sua mão, simbolizando transcendência
do tempo e direção. Vairochana é freqüentemente
representado com quatro faces, percebendo simultaneamente todas as
direções, o que expressa completa abertura de consciência
e visão panorâmica descentralizada. Ele representa a
sabedoria de dharmadhatu, o espaço ilimitado que a
tudo penetra, onde tudo existe como realmente é. Sendo a figura
original e central, sua família é conhecida como a família
Buda ou a família Tathagata; estes nomes representam
a realidade verdadeira, oposto da ignorância. Em seu aspecto
negativo, ele simboliza o veneno básico da confusão
ou ignorância básica fora da qual todos os outros evoluem.
Akshobhya (o Buda Imóvel) ou Vajrasattva (Ser Diamante) é o Buda do Reino Oriental da Felicidade Pré-Eminente.
Ele é azul e a brilhante luz branca da sabedoria espelhada
que se irradia de seu coração compete com a torpe luz
esfumaçada do reino do Inferno (narakaloka). Abraçado
pela sua Shakti Buda-Locana, a Buda Olho, ele está
descansando em um trono elefante, segurando em sua mão uma
Vajra de cinco dentes ou raio. Seus acompanhantes assistentes são
os Boddhisattvas Kshitigarbha, a Essência da Terra,
e Maitreya, o Amoroso, bem como dois Bodhisattvas femininos, Lasya, a deusa da dança e Pushpa, a deusa
das flores. Akshobhya é o soberano da família Vajra que representa sabedoria transcendental profunda que
reflete tudo com claridade e sem julgamento crítico. O veneno
correspondente é agressão ou ódio.
Ratnasambhava (Nascido de Uma Jóia) é o Buda do Reino Meridional Dotado
de Glória. Ele é amarelo e irradia deslumbrante luz
de equanimidade e não-discriminação, a riqueza
e majestade que podem fazer alguém escolher a concorrente luz
amarelo-azulada torpe do reino humano (manakaloka). Sentado
em um trono cavalo, Ratnasambhava está segurando em
sua mão a jóia realizadora dos desejos. Sua cor amarela
representa a fertilidade, prosperidade e riqueza da Terra; sua consorte Mamaki representa a água, um elemento indispensável
para a fertilidade. Os dois acompanhantes Bodhisattvas masculinos
são Akashagarbha, ou a Essência do Espaço,
e Samantabhadra, o Todo-Bom e suas contrapartes femininas
são Mala, representando jóias e adornos preciosos
de todos os tipos, e Dhupa, a deusa do olfato, perfume, e
ar fresco. Ratnasambhava preside sobre a família Ratna que é caracterizada pela sabedoria da luz não-discriminante
da equanimidade e igualdade; seu veneno específico é o orgulho.
Amitabha (o Buda da Luz Infinita) é o Buda do Reino Ocidental da Felicidade, O Paraíso
Ocidental, ou Sukhavati. Ele é vermelho e irradia
de seu coração brilhante luz vermelha da sabedoria que
a tudo discrimina; a alternativa aqui é a torpe luz vermelha
do reino dos fantasmas famintos (pretaloka). Amitabha está
sentado em um trono de pavão, segurando um lótus em
sua mão, e abraçado por sua Shakti Pandaravasini,
a Vestida de Branco. O pavão e o lótus simbolizam pureza,
abertura e aceitação. Os Boddhisattvas de Amitabha são Avalokiteshvara, a inteligência definitiva
da compaixão, Manjushri, representando a comunicação
da compaixão através do som, Gita, a deusa
do som e a porta-tocha Aloka. Amitabha comanda a família Padma caracterizada pela compaixão e sabedoria discriminante;
seu veneno é a indulgência nas paixões ordinárias
e o apego aos aspectos prazerosos do mundo material.
Amogha-Siddhi (o Buda da Mágica Infalível) é o Buda do Reino
Setentrional das Performances Bem Sucedidas das Melhores Ações.
Ele é verde e emana de seu coração radiante luz
verde que compete com a torpe luz verde do reino dos guerreiros divinos
(asuraloka). Ele está sentado em um assento de sheng-sheng,
uma forma de harpia ou Garuda, um pássaro arquetípico
que é músico e um símbolo de realização;
ele pode voar e percorrer todo o espaço. Amogha-Siddhi está abraçado por sua consorte, Samaya-Tara,
a Salvadora do Mundo Sagrado, e a vajra cruzada multicolorida que
ele segura em sua mão simboliza a área de todas as atividades
percebidas em todas as direções, um tipo de realização
e preenchimento panorâmicos. Aqui encontramos os Bodhisattvas Vajrapani, ou O que porta a Vajra, simbolizando enorme
energia, e Sarvanivarana-viskambhin, o Purificador de Todos
os Obstáculos, bem como suas contrapartes femininas, Gandha,
a deusa do perfume, e Naivedya, que fornece alimento para
a meditação. Amogha-Siddhi preside a família Karma, associada com ação sábia, eficiência,
e desempenho; seu veneno característico é a inveja.
Os cinco Tathagatas surgem individualmente nos primeiros
cinco dias consecutivos do Bardo Chonyid. No sexto
dia, todos estes cinco Budas primordiais se manifestam simultaneamente.
Se alguém não estiver preparado para esta experiência,
isto leva a um estado de perplexidade, já que os cinco Tathagatas preenchem todo o espaço, todas as direções, não
há escape, uma vez que os quatro portões também
estão guardados pelos Guardiões dos Portões: Vijaya ou O Vitorioso (Leste), Yamantaka ou O Destruidor
do Senhor da Morte (Sul), Hayagriva ou o Rei Cabeça
de Cavalo (Oeste), e Amritakundali ou a Espiral do Néctar
da Imortalidade (Norte), todos com suas Shaktis. Além
disso, há os Budas dos seis lokas, e outras figuras,
completando quarenta e duas deidades.
As Deidades guardiãs do conhecimento do Chonyid Bardo
No sétimo dia, com o desenvolvimento das imagens do Chonyid
Bardo, os Vidyadharas, ou Deidades Detentoras do
Conhecimento, fazem sua aparição. As deidades do Bardo
Thödol têm uma conexão específica com os
centros de energia psíquica ou chakras. Enquanto que as divindades
pacíficas estão associadas ao chakra do coração
e as divindades coléricas seguintes com o chakra frontal,
os Detentores do Conhecimento representam a ligação
entre eles, mediada pela fala e estão, portanto conectados
ao chakra da garganta. Similarmente, eles não são
nem pacíficos nem irados, mas intermediários, eles são
imponentes, impressionantes, e esmagadoramente irresistíveis.
No momento de sua aparição, a luz verde do reino animal
(tiryakaloka) se manifesta simbolizando a ignorância.
Os Vidyadharas estão todos dançando, enquanto
fazem mudras de fascinação e seguram longos punhais
e crânios cheios de sangue; o significado esotérico do
crânio cheio de sangue é a renúncia à vida
humana e ao mundo de samsara. No centro de seu círculo
está a Lótus do Senhor da Dança, o Supremo Detentor
do Conhecimento Que Matura O Fruto Kármico, em um halo de radiantes
cores do arco-íris, abraçado pela sua Dakini Vermelha.
No leste está a deidade chamada Detentor do Conhecimento Terra-Permanente,
de cor branca e abraçado pela Dakini Branca. Ao Sul está
o sorridente e radiante Detentor de Conhecimento chamado Aquele que
Tem Poder Sobre A Duração da Vida, de cor amarela e
com a Dakini Amarela. A deidade no Oeste é o Detentor do Conhecimento
do Grande Símbolo, vermelho, sorridente e radiante, e abraçado
pela Dakini Vermelha. E finalmente ao Norte está o Detentor
do Conhecimento Auto-Evoluído, verde na cor, com o semblante
metade furioso e metade sorridente, abraçado pela Dakini Verde.
Os Detentores do Conhecimento são rodeados por inumeráveis
dakinis de vários tipos, heróis, heroínas, guerreiros
celestiais e deidades protetoras da fé. Utilizando tambores,
trompetes de fêmures, pandeiros de crânios, cobertas e
bandeiras de peles humanas, eles produzem música pavorosa que
faz o mundo inteiro vibrar, sacudir e estremecer. Mantras inspirando
assombro se alternam com gritos apavorantes: “Matar! Matar!”.
As Deidades coléricas do Chonyid Bardo
Do oitavo ao décimo segundo dia, os Tathagatas aparecem
em seus aspectos demoníacos, horripilantes e instigadores de
pavor, como herukas e suas consortes. Eles têm três
cabeças, seis braços e quatro pés e representam
a qualidade irrestrita e ilimitada da energia das famílias
Búdicas. Toda a energia básica de todos os Coléricos Herukas está concentrada no Grande Glorioso Heruka marrom escuro; ele é o aspecto horripilante de Vairochana. Vajra-Heruka é azul escuro e é a forma colérica
de Vajra-Sattva (Akshobhya). O aspecto horrível
de Ratnasambhava é o Ratna-Heruka amarelo,
enquanto que a contraparte escura do Buda Amitabha é Padma-Heruka preto avermelhado, e a de Amogha-Siddhi é o Karma-Heruka verde escuro.
No décimo terceiro dia se manifestam os Kerimas, Os
Oito Coléricos, e Htamenmas, assombrosas deidades
zoomórficas; elas têm as cabeças de vários
animais – de um leão, tigre, raposa negra, lobo, abutre,
pássaro vermelho de cemitério, corvo e coruja. No décimo
quarto dia, as visões do Chonyid Bardo terminam
com um rico arranjo de deidades, entre elas Quatro Guardiões
Femininos de Portais com cabeças de animais e outras poderosas
deidades zoomórficas e Yoginis. Se todas as oportunidades de
libertação nos primeiros dois Bardos foram perdidas,
o processo se move para o Sidpa Bardo, ou O Bardo
da Busca Pelo Renascimento, com seus desafios específicos.
Sidpa Bardo: O julgamento e os seis reinos da existência
Um tema central no processo de buscar o renascimento no Sidpa
Bardo é a cena do julgamento que leva à designação
para um dos seis reinos da existência ou lokas. O Rei e O Juiz
da Morte é uma deidade chamada Dharma Raja (Rei da
Lei) ou Yama Raja (Rei da Morte); ele é o aspecto
colérico de Chenrazee, o Protetor Nacional do Tibet.
Sua cabeça e corpo, bem como seu pavilhão e sua corte
são adornados com crânios humanos, cabeças e peles.
Sob seus pés, ele está pisando uma figura Mara,
simbólica de maya, a natureza ilusória da existência
humana. Ele julga a morte segurando em sua mão direita uma
espada, um símbolo de poder espiritual e em sua mão
esquerda o Espelho do Karma, no qual estão refletidas todas
as boas e más ações para o julgamento.
Ao lado da balança, assistidos por Shinje, uma deidade
com cabeça de macaco, perfilam-se duas figuras – O Pequeno
Deus Branco com um saco de seixos brancos e O Pequeno Deus Negro com
um saco de seixos pretos. Seguindo as instruções de Yama Raja, eles colocam na escala seixos brancos ou pretos
de acordo com os méritos ou débitos kármicos
do julgado. Um conselho de deidades sentado na Corte do Julgamento,
muitas das quais com cabeças de animais, asseguram justiça
imparcial e a regularidade do procedimento. De acordo com o resultado
da pesagem, os mortos são designados a um dos seis reinos da
existência. Na psicologia Budista Tibetana, todo este processo
não está limitado ao tempo da morte biológica,
mas se aplica igualmente às profundas transformações
que ocorrem ao longo da prática espiritual. É esta parte
do Bardo Thödol, a que mais agudamente se equipara aos eventos
do Livro da Morte Egípcio, bem como aos textos escatológicos
de outras culturas.
O reino do inferno (narakaloka) é um domínio onde alguém é exposto a torturas
extremas, cada uma delas representa em última análise
as forças que operam na nossa própria psique. Aqui estão
os Oito Infernos Quentes onde campos e montanhas são feitos
de metal quente ao rubro, rios são transformados em ferro derretido
e o espaço claustrofóbico é preenchido com fogo.
A situação é oposta nos Oito Infernos Frios,
regiões de extremo frio onde tudo está congelado e coberto
com gelo e neve. Nos infernos quentes estão aqueles que cometeram
atos ímpios motivados por raiva violenta, enquanto que os atos
resultantes de motivos egoístas e orgulhosos levam alguém
aos infernos frios. Algumas torturas adicionais envolvem ser cortado
ou serrado em pedaços, estrangulado com laços, perfurado
por espinhos e exposto a pressões esmagadoras. Este é o Inferno Avitchi, onde aqueles que usam magia para destruir
seus inimigos ou aqueles que deliberadamente negligenciaram a realização
dos votos Tântricos sofrem torturas por tempos quase imensuráveis.
O reino dos fantasmas famintos (pretaloka) é habitado pelos pretas, lamentáveis criaturas que possuem
apetite insaciável. Eles têm grandes estômagos
estendidos que demandam satisfação, mas suas bocas são
do tamanho de furos de alfinete, de modo que eles nunca podem obter
o suficiente. Neste reino, há uma tremenda ânsia de riqueza,
para a obtenção de posses. Contudo, mesmo que obtenhamos
os frutos de nossos desejos e os possuamos, somos incapazes de desfrutá-los
Isto nos faz sentirmo-nos mais famintos e mais privados, carentes.
Em adição, nossa satisfação não
dura e após uma fugaz experiência de prazer segue-se
mais outra busca sem fim. Este é o sofrimento que está
associado com a ganância.
O reino animal (tiryakaloka) é caracterizado por um torpe modo de
vida; isto é mera sobrevivência em um nível simples
e descomplicado, onde um senso de segurança se alterna com
episódios de medo. Toda as vezes que algo está irregular
ou imprevisto é ameaçador e se torna uma fonte de confusão
e paranóia. Entre outros, o reino animal é caracterizado
por ausência de humor. Os animais podem vivenciar prazer e dor,
mas o senso de humor e ironia não existe em suas vidas.