Alguns assuntos críticos ao Trabalho de Respiração
Holotrópica de Stan e Christina Grof -
Uma Discussão entre Wilfried Ehrmann, Ph.D. & Stan Grof,
M.D., Ph.D.
Tradução de Álvaro Jardim
1. Integração
Pergunta
de Wilfried:
O assunto da integração, no que diz respeito ao material que emerge,
não é tratado com minúcias na teoria e prática do Trabalho de Respiração
Holotrópica (doravante TRH). Quando se torna compreensível, que o
trabalho interpretativo seja omitido, no que diz respeito à experiência
do cliente, não obstante, há muito mais perguntas que são deixadas
em aberto. Uma delas se refere às experiências desestabilizantes,
que a respiração forçada pode facilmente trazer a tona. Como podem
estas experiências ser trazidas e conectadas em harmonia dentro de
uma estrutura?
Resposta de Stan: Concordo com você que no TRH, bem como em
algum outro trabalho com estados incomuns de consciência, a integração
da experiência é um assunto crítico. Onde eu não poderia concordar
é que a questão da integração não tem sido adequadamente encaminhada
na literatura do TRH ou em nosso treinamento. O fato de nós evitarmos
interpretação convencional, por causa de sua arbitrariedade e dependência
das escolas de facilitadores, não significa que não estamos conscientes
da necessidade de facilitar integração de experiências poderosas.
Você poderia, certamente, encontrar passagens dedicadas a esse importante
problema, em meus mais recentes escritos sobre terapia psicodélica,
bem como nos mais antigos sobre o TRH, mais recentemente, em meu livro
Psicologia do Futuro.
Tentarei, neste ponto, brevemente resumir os mais importantes princípios
envolvidos, como eu os vejo. Primeiro, direcionarei este assunto em
relação aos workshops do TRH (onde o TRH é utilizada num contexto
de grupo) e, posteriormente, farei alguns comentários adicionais sobre
o uso clínico do TRH, na terapia de sérias desordens emocionais e
psicossomáticas. Os fatores facilitadores da integração iniciam sua
função antes da sessão de TRH; minuciosa preparação teórica, contato
bem estabelecido com os facilitadores e desenvolvimento da confiança
no grupo são de importância crítica. Durante a sessão de TRH, a manutenção
da experiência internalizada, o sentido de segurança, dando atenção
focada para o emergente material inconsciente, e boa vontade para
expressar completamente as emoções emergentes e energias físicas são
pré-requisitos para uma boa integração.
Para ajudar a melhor integração possível da experiência, os facilitadores
e sitters* têm que estar com o respirante enquanto ele ou ela está
em processo e têm experiências incomuns. Para o estágio terminal da
sessão, temos desenvolvido especificamente uma certa espécie de trabalho
corporal focado, que pode grandemente ajudar no sucesso pleno da completude
da sessão. Ela é projetada para liberar emoções e energias físicas
que foram ativadas, mas não resolvidas apenas pelo trabalho de respiração.
O contato íntimo com a natureza pode também ter um efeito de base
e calmante e ajudar a integração da sessão. Particularmente efetiva
neste ponto é a exposição à água, tal como estar em uma banheira quente
ou nadar em uma piscina, um lago ou no mar. Posteriormente, o trabalho
com mandalas e o compartilhar em grupo pode ser inestimável. Evitamos
interpretações, mas os facilitadores, freqüentemente, usam outros
métodos - não considerando patológica e validando a experiência, encorajando
e apoiando comentários, nutrindo o apoio do grupo, dançando de forma
expressiva, etc.
Nos dias seguintes a sessões intensas, que envolveram uma maior abertura
ou passagem emocional, uma ampla variedade de abordagens completares
pode facilitar a integração. Entre elas estão discussões sobre sessões,
com um facilitador experimentado, tomando nota dos conteúdos da experiência
ou desenhando mais mandalas. Bom trabalho corporal com um profissional
que permita a expressão emocional, sacudindo, nadando e outras formas
de exercício físico ou expressivas danças podem ser muito úteis, se
a experiência holotrópica liberta excesso de energias físicas, previamente
mobilizadas. Uma sessão de Gestalt terapia ou jogo de areia junguiano
de Dora Kalff pode ser de grande ajuda em insights refinados dentro
da experiência holotrópica e na compreensão de seus conteúdos.
Quando as sessões são utilizadas para terapia no contexto clínico,
a abordagem de grupo somente pode ser usada em clientes cujos problemas
emocionais permitem a eles alternarem no papel de sitters. Por outro
lado, ele é necessário para conduzir sessões individuais privativas.
Em trabalho clínico, tanto individual como em grupo, o terapeuta empregaria
um tempo adicional com seus clientes. Sessões experienciais seriam
complementadas pelas entrevistas terapêuticas, ajudando os clientes
a integrar as experiências das sessões dentro de sua vida diária e
traçar a estratégia para a próxima sessão de RH. No entanto, esse
trabalho seria igualmente informado pelos princípios e estratégia
da terapia holotrópica (como o descrevi em Psicologia do Futuro) e
não envolveria o uso de interpretações. Novamente, a razão para isso
é, por um lado, a absoluta arbitrariedade de "interpretações", refletindo
as bases específicas de escolas (o mesmo conteúdo interpretado de
muitas diferentes maneiras, dependendo do treinamento do terapeuta)
e, por outro, o fato que nela, não existe prova que há uma correlação
entre o conteúdo das interpretações e os resultados clínicos. Os resultados
terapêuticos parecem ser classificados relativamente de modo igual
entre as escolas, dependendo mais das qualidades pessoais dos terapeutas
do que da "exatidão de suas doutrinas teóricas refletidas em suas
interpretações".
2. A indução de experiências "espetaculares".
Pergunta de Wilfried: Se a discussão introdutória,
para uma experiência de trabalho de respiração no TRH, mascara extensivamente
a conformidade da ocorrência do transpessoal ou de experiências "espetaculares",
como Stan Grof as descreve, em suas numerosas publicações, ela está
apta a induzir a experiência naquela direção. Pode, portanto, acontecer
que essas experiências incomuns (ou interpretações subjetivas das
experiências) sejam produzidas em uma atmosfera altamente carregada de
um grupo de respirantes holotrópicos, enquanto há falta de provas,
quer ou não essas experiências tenham valor terapêutico.
Resposta de Stan: A referência às experiências perinatais e
transpessoais como "espetaculares", como você apenas referiu, reflete
uma forte tendência cultural e profissional. Eu tenho uma amiga maravilhosa, Jane Middelton-Moz, que é meio nativa americana; ela me critica
por usar o termo "estados incomuns de consciência ". Ela acha que
combina melhor o termo "estados alterados" o qual, atualmente, tenho
aversão. Ele tem um sabor pejorativo e envolve um julgamento negativo
sobre o valor ontológico e relevante dessas experiências (eu sempre
penso sobre o uso da palavra "alterado" em medicina veterinária
quando o ouço). Sugere que há uma "maneira normal" de experienciar
nos próprios e o mundo e que o que está fora daquela ordem é um produto
da doença mental, causada por algum desconhecido processo patológico
no cérebro, ainda a ser identificado pela ciência materialista
monística. Jane continua me dizendo: "Stan, eu não compreendo porque
você usa o termo "estados incomuns"? Para meu povo, essas experiências
são parte do espectro normal da experiência humana!" Então, como você
vê eu sou criticado de ambos os lados - por um lado por ser excêntrico
e exótico e por outro lado, por ser tão conservador.
Quarenta e cinco anos de trabalho com "estados incomuns" (como descrevi
em Psicologia do Futuro, estou atualmente utilizando para esses estados
o termo "holotrópico") têm me convencido, que a verdade nesse caso
é estar do lado dos nativos americanos (e, do mesmo modo todas as
culturas antigas e pré-industriais) e não do lado da corrente da psiquiatria
e psicologia ocidentais. Eu tenho visto numerosos exemplos do extraordinário
poder de cura das experiências perinatais e transpessoais, e, também,
ocorrer em pessoas em nosso treinamento e workshops. A psiquiatria
tradicional teria que expandir vastamente seus horizontes e aceitar
a existência desses fenômenos "anômalos". E, para a outra parte da
sua questão, a possibilidade de experiências direcionadas dos participantes,
por uma entusiasmada conversa para o reino "espetacular", é atualmente
mínima. Temos repetidamente visto pessoas que desejam atingir aqueles
reinos, para experienciar morte-renascimento psico-espiritual, memórias
cármicas ou encontros com seres arquetípicos porque leram sobre eles
e são incapazes de alcançá-los. A experiência os coloca num armamento
físico, num confronto com raiva, ou na morte de suas mães. Em estados
holotrópicos, vivenciamos o que é preciso, e não o que desejamos.
3. Desvantagens do TRH ao ser limitada a um contexto de grupo.
Pergunta de Wilfried: O TRH é, para a maior parte, limitada ao processo
de grupo onde, como todos conhecemos, o modo e a abordagem são facilmente
comunicados entre os membros e são altamente influentes. O formato
do TRH não se adapta facilmente às sessões individuais, isto é, às
sessões com somente uma pessoa e o facilitador. Por isso há um perigo
do TRH se tornar parte da cultura do workshop, onde as pessoas vivem
de um alto nível experiencial para outro, isoladas, e essas experiências
perdem seu efeito um tanto rapidamente, após o término do grupo.
Resposta de Stan: Não é, realmente, verdade que o formato do
TRH não se adapta, facilmente, às sessões individuais. Como mencionei
anteriormente, o TRH pode e tem sido usada, em um número de ocasiões,
em sessões individuais. No entanto, exceto no contexto clínico, onde
há boas razões para isso, essa não é a mais efetiva maneira de utilizá-la.
O contexto de grupo oferece algumas vantagens muito significativas.
A mais óbvia é a questão da economia. Enquanto você planejaria três
horas de seu tempo para uma sessão individual de TRH, Christina e
eu fizemos o trabalho, nos dias iniciais, em Esalen e outros lugares,
com até 36 participantes, no workshop. Posteriormente, em grandes
grupos internacionais (o maior deles, em Santa Rosa e em Praga, tivemos
acima de 300 participantes), temos utilizado um facilitador treinado
para cada cinco duplas. Nossa experiência tem sido que sitters não
treinados podem, geralmente, apoiar efetivamente o processo dos respirantes,
durante a maior parte do tempo. Facilitadores treinados são necessários
somente quando as situações, durante as sessões, requerem habilidades
especiais ou, no período final das sessões, quando o trabalho corporal
é conduzido.
Uma sessão individual, em que as últimas duas horas seriam mais longas
que a média (a qual pode acontecer), derrubaria completamente a agenda
de um terapeuta individual, a menos que o cliente fosse o último do
dia, ou até mesmo nesta situação. Esta situação não traria problemas
no grande grupo, considerando o número de respirantes envolvidos;
a provisão para esse acontecimento seria construída dentro do formato
do workshop. A atmosfera das sessões de grupo tem um efeito catalítico
muito forte e parece ser condutivo para experiências muito mais intensivas
do que nas sessões individuais. Desse modo, esses eventos de grupo
são muito similares aos rituais aborígines. O uso de poderosos sistemas
de música, a atmosfera excitante e o efeito contagiante do processo
emocional de outros faz este contexto particularmente efetivo. Quando
tanto está acontecendo, é fácil participar, enquanto na sessão individual,
o respirante é muito mais autoconsciente.
Um aspecto do trabalho, no contexto de grupo, que merece especial
atenção é a experiência dos "sitters"* (coloquei este termo entre
aspas, já que ele não captura, adequadamente, a função dos parceiros;
mas não temos ainda encontrado um melhor). Os participantes disseram-nos,
repetidamente, que a experiência de ser um "sitter" foi muito significativa
e profunda, para eles. Eles indicam que têm aprendido bastante com
esta experiência, ajudando-os, significativamente, em seus próprios processos.
Um reflexo disto está no fato de uma proporção impressiva, daqueles
que participaram de workshops de TRH, ficou tão mobilizada pelas suas
experiências em sessão, que eles, realmente, decidiram se envolver
no treinamento, para se tornarem facilitadores.
Uma outra vantagem é o compartilhar em grupo das experiências. Se
o terapeuta não julga ou não rejeita os respirantes individuais para as
experiências que eles próprios consideram altamente desagradáveis
(p. ex. episódios violentos, conteúdos sexuais explícitos, etc.),
isto é freqüentemente atribuído ao treinamento profissional especial
do terapeuta. O próprio material continua a ser considerado ofensivo
e abominável. Se a situação dos participantes não mostra julgamento
e continua sendo amorosa e apoiadora, isto pode prover uma poderosa
experiência corretiva. Na oportunidade, permite aos pares serem mais
abertos e honestos, em relação aos seus próprios segredos mais profundos.
Auxilia a criação de uma atmosfera no grupo, a qual torna óbvio aos
participantes compartilharem problemas, comuns às espécies
humanas. Isto acontece quando há um efeito muito libertador. Em adição,
em muitas instâncias sociais, o contato entre os participantes continua,
após a sessão, e leva a um trabalho de rede nacional e internacional,
provendo importante apoio emocional, filosófico e espiritual. Assim,
o efeito das experiências do TRH se estende longe, além do "alto"
(ou "baixo") da própria sessão e não conduz para a subcultura de indivíduos
isolados, que estão emocionalmente dependentes das experiências ocasionais
"espetaculares".
4. O TRH mal usa as possibilidades do relacionamento terapêutico.
Pergunta de Wilfried: O TRH mal usa as possibilidades do relacionamento
terapêutico que, segundo a pesquisa científica na psicoterapia é o
principal fator de cura de qualquer terapia (cf. Moeller, 2000, p.
59). Ao contrário, o papel do terapeuta é reduzido a um mínimo,
no caso ideal: "No caso ideal, uma sessão holotrópica requer um mínimo
de intervenção do terapeuta. Sua tarefa principal é observar o processo
e manter atenção à rápida e efetiva respiração". (Grof 1987, p. 252)
Resposta de Stan: A passagem que você cita é relacionada ao
curso da própria sessão holotrópica. A ênfase no TRH é, inequivocamente,
sobre a internalização do processo e orientação interna. Como mencionei
anteriormente, isto elimina a arbitrariedade da intervenção terapêutica,
refletindo o treinamento do terapeuta e a tendência pessoal. O que
a literatura na terapia verbal enfatiza é a qualidade da relação terapêutica,
não o conteúdo das interpretações ou especificidades das técnicas;
esse variar amplamente de escola para escola e não poder deste modo
ser um fator crítico em cura - os relacionamentos com os facilitadores,
com os sitters e com outros membros do grupo. O desenvolvimento rápido
do forte vínculo é um dos mais impressivos fatores do trabalho com
estados holotrópicos. O antropólogo americano Victor Turner escreveu
que o tempo de compartilhamento, em eventos rituais dessa espécie,
facilita poderosamente a forma do que ele chamou "communitas", conexão
emocional profunda, o senso de comunidade. E que é um fator de cura
muito poderoso. Deveríamos, também, não esquecer um outro importante
elemento no TRH - o uso de contato físico apoiador dirigido a prover
satisfação de necessidades anaclíticas e experiência interpessoal
corretiva, num nível pré-verbal muito profundo. Esse é um tópico que
poderia requerer discussão especial.
5. Abstenção de interpretação.
Pergunta de Wilfried: Com respeito à abstenção
de interpretação, a regra é que os facilitadores não deveriam interpretar
as experiências, durante o compartilhamento em grupo, após o término
da experiência da respiração. A explanação é aquilo que pode inibir
o processo do respirante de, mentalmente, filtrar a experiência para
ele/ela mesma, e que removeria o poder transformador da experiência.
Esta idéia é importante e deveria ser considerada, em algum processo
profundo de auto-exploração. Não obstante, pode ser importante, em
muitos casos, oferecer apoio ao cliente, no que diz respeito à integração,
especialmente, quando a experiência for intensa e espetacular, porque
as experiências como estas podem ter efeitos desconcertantes, em diferentes
graus. Quando o cliente e o terapeuta compartilham uma busca comum
por significado, um importante apoio é provido para transferência
da experiência, dentro da realidade ordinária.
Resposta de Stan: Eu penso que tinha dito bastante sobre o
problema da interpretação psicológica e sua natureza caprichosa. Concordo
com você, no geral, que é importante oferecer aos clientes apoio,
no que diz respeito à integração e ajudá-los com a transferência da
experiência dentro da realidade ordinária. Também acredito que o cliente
e o terapeuta devem compartilhar uma busca comum de significado. Mas
estou convencido que há muito melhores meios para conseguir estes
objetivos do que interpretando.
Isto é particularmente verdadeiro, se o terapeuta tiver uma estrutura
conceitual estreita, limitada à biografia pós-natal e ao inconsciente
individual freudiano, a qual domina, atualmente, a corrente da prática
psicoterapêutica. Nesse caso, as interpretações poderiam ser de fato
seriamente enganadoras, porque não reconheceriam as experiências perinatais
e transpessoais como fenômenos sui generis. O terapeuta tenderia a
vê-los como eventos, que poderiam ser compreendidos em termos biográficos
ou mesmo os confundiria como produtos de um processo psicótico, para
o qual não haveria interpretação psicológica e, portanto, deveriam
ser evitados.
Isto nos trás de volta à nossa discussão prévia sobre "experiências
espetaculares". Se o trabalho de respiração usa uma ampla cartografia
da psique, os participantes têm, a priori, uma estrutura conceitual,
dentro da qual as experiências, em sua maioria, que seriam consideradas
de outra maneira "espetaculares", são vistas como constituintes normais
da psique humana. Esta perspectiva é também compartilhada pelos facilitadores
e o restante dos membros do grupo, situação que é similar àquela dos
participantes em rituais nativos. Sob aquelas circunstâncias, "as
experiências espetaculares" produzem um sentido de espanto e de numinosidade,
melhor do que causar alvoroço emocional, quebras conceituais e confusão.
6. O TRH tem uma atitude não crítica em direção ao conceito de
"Curador Interno".
Pergunta de Wilfried: Para mim, o TRH parece ter uma atitude não crítica
para o conceito do "curador interno". Ela diz que carregamos uma autoridade
interna que controla o ritmo e os temas, no que diz respeito ao crescimento
de nossa alma. Em uma sessão de respiração, esta autoridade hipotética
é responsável no sentido de que somente o material, que pode ser integrado,
emerge. O benefício desta idéia, como uma sugestão, é inquestionável,
porque, provavelmente, ela inspira nos respirantes sentimentos de
segurança e confiança, e reduz, assim, a probabilidade das experiências,
que não podem ser integradas emergirem. Não obstante, este conceito
pode ser mal empregado, quando a responsabilidade do instrutor do
grupo é espelhada de volta aos participantes, no que diz respeito
a seus curadores internos. Se houver uma experiência que seja difícil
de integrar, toda a idéia, que "isto era o que o curador interno desejava",
é demasiado facilmente disponível.
Resposta de Stan: Quando falamos sobre o fato que os estados
holotrópicos dos vários tipos (a iniciatória crise dos xamãs, as experiências
psicodélicas, a respiração holotrópica, as emergências espirituais,
etc.) mobilizam "o curador interno", uma inteligência intrínseca da
psique que guia o processo, não significa que há uma garantia absoluta
da segurança e do sucesso do processo, sob todas as circunstâncias.
Embora o processo tenha um forte potencial de cura e um sentido geral
para a saúde, o resultado final é, ainda, co-determinado por um número
de variáveis internas e externas - a habilidade do assunto de render-se
a ele ou, inversamente, a resistência a ele, o set e o setting, a
qualidade do sistema de apoio, os determinantes culturais, etc.
Por exemplo, em culturas nativas é compreendido que a crise xamânica
reflete o mais alto chamado e nele está sua natureza curadora e benevolente.
O mesmo é verdadeiro sobre o despertar da Kundalini, como é descrito
na literatura yogue. Ao mesmo tempo, é bem conhecido que estes processos
podem causar, sob certas circunstâncias, consideráveis problemas para
os experienciadores*. Ambos, o saber xamânico e a literatura yogue
enfatizam que pode ser muito perigoso resistir ao processo. Não é
incomum, que sérios problemas, incluindo episódios psicóticos, ocorram
durante intensas práticas espirituais, com ou sem exercícios respiratórios,
como por exemplo, em sesshins Zen, em retiros Vipassana, na oração
cristã, nos zikers do Sufi, etc.. Até onde a prática psicoterapêutica
diz respeito, houve exemplos, onde o colapso emocional ocorreu, em
contextos que não envolveram nenhum exercício de respiração - durante
a psicanálise tradicional, em oficinas de Gestalt, no curso de treinamento
de EST, etc..
Em algum tipo da atividade humana, há um determinado elemento de risco
e isto é verdadeiro para a psicoterapia, bem como para a prática espiritual.
Nós podemos tentar nosso melhor, para reduzir este risco a um mínimo,
mas nós nunca podemos oferecer uma promessa de segurança absoluta.
Haverá sempre os fatores que estão além de nosso controle. Os problemas,
com a integração de uma sessão particular assim, não deveriam ser
unicamente responsabilizados sobre o curador interno ou, inversamente,
ser visto como falha dos facilitadores. Tanto quanto no que diz respeito
aos facilitadores, deveríamos examinar se eles fizeram o melhor que poderiam,
sob tais circunstâncias. Nem o curador interno, nem o melhor facilitador
podem garantir que nenhum problema emergirá sempre.
7. O formato dentro do TRH é relativamente inflexível, enquanto seus elementos individuais têm sido usados flexivelmente, em outros contextos.
Pergunta de Wilfried: O formato do TRH é relativamente inflexível. O processo
da respiração dura pelo menos três horas e, depois, é o momento para
a pintura da mandala. Isto significa que a metade do dia é requerida
para uma sessão de TRH. Após as mudanças das duas sessões, há um compartilhar
em círculo. Assim então, geralmente, são necessários de três a quatro
dias de seminário para duas sessões de respiração. Este formato pode
ser justificado pela intensidade das experiências, que necessitam
muito tempo para a integração. Não obstante, não é compreensível porque
um tempo mais curto, para a respiração, não pode também ser apropriado.
Nós sabemos do trabalho prático, que os elementos principais do TRH
podem ser usados em outros formatos com sucesso, por exemplo, em sessões
de uma a uma hora e meia. Este fato não é refletido nas publicações
do TRH.
Resposta de Stan: Antes que eu responda a esta pergunta, eu
gostaria de dirigir-me a o que você disse sobre o tempo necessário,
para experiências do TRH. É importante fazer uma distinção entre um
seminário introdutório, que envolve muitas pessoas, as quais são novas
para o procedimento e precisam preparação teórica minuciosa e prática.
Para esta finalidade, necessitamos, no mínimo, dois dias (geralmente
a noite de sexta-feira, o sábado, e a manhã de domingo). Pessoas que
estão familiarizadas com o encontro do trabalho de respiração, apenas
para as sessões de TRH e o compartilhar, o qual toma consideravelmente
menos tempo; duas sessões e o compartilhar podem, facilmente, ser
feitas em um dia.
E agora a sua pergunta. Estou ciente que há algumas abordagens usando
a respiração no contexto de sessões, que são, consideravelmente, mais
curtas do que aquelas do TRH. Entretanto, estão usando, geralmente,
as estratégias que são mais conservadoras, por exemplo, combinando
este trabalho com o diálogo terapêutico e orientação, monitorando
o processo e controlando a intensidade e a forma da respiração, etc..
Isto é, freqüentemente, associado a uma tendência a evitar as áreas
de experiências, que aparecem demasiado intensas e perigosas. Entretanto,
a existência de tal material no inconsciente (por exemplo, o trauma
do nascimento, as memórias próximas de afogamento, o arquétipo demoníaco,
etc.), realmente, tende a ser a principal fonte de muitos clientes
de problemas emocionais e psicossomáticos. Eles não podem ser trabalhados
completamente em pequenas prestações de experiências mais superficiais
e menos intensas.
Quando permitimos que as experiências apareçam completamente, temos
que continuar este trabalho até que ele se complete; não podemos estabelecer
limites na duração da experiência. Eu penso que, minhas idéias e estratégia,
a este respeito, têm sido fortemente influenciadas pelo tempo de trabalho
com psicodélicos, onde elas não poderiam determinar e controlar quão
profunda a experiência deveria ir e como ela deveria ser. E este é
o ponto onde eu repetidamente observei que, as experiências que, à
primeira vista, parecem muito perturbadoras e perigosas são aquelas
que são seguidas pela mais profunda cura, quando são suportadas apropriadamente
e integradas (por exemplo, revivendo um nascimento difícil). Evitando
confronta-las e mantendo o foco em áreas "seguras" no inconsciente,
seria, então, contraproducente e o set limitaria o grau e a profundidade
de cura, que poderia ser conseguida.
8. A respiração tem um insignificante papel no TRH.
Pergunta de Wilfried: A respiração tem um papel insignificante no TRH.
Ela é principalmente usada como uma ignição inicial ou catalisador
para a experiência, sendo seu papel o de induzir um transe, tal
como um estado alterado de consciência, que permitirá relevantes
experiências. Uma vez que o transe é induzido, à respiração não
é dada importância adicional. O TRH, conseqüentemente, está somente
ensinando como aprofundar e acelerar a respiração. Outras possibilidades
terapêuticas relacionadas à potência e variabilidade da respiração
e, especialmente, seu refinamento são negligenciados. Estamos assim
habilitados a perguntar se o TRH é um trabalho de respiração em
tudo.
Resposta de Stan: A situação, em relação à teoria e prática
da respiração, é similar à situação no mundo da psicoterapia, que
discutimos, anteriormente. Há muitas escolas usando a respiração
para cura, finalidades terapêuticas e espirituais e, cada uma delas,
ensina algo diferente. Atrás de cada uma delas, geralmente, está
uma convicção implícita que sua técnica particular é a maneira correta.
O fato é que você pode fazer muitas coisas diferentes com sua respiração
e ela mudará sua consciência.
Sabemos, há séculos, que é possível influenciar a consciência pelas
técnicas que envolvem a respiração. Os procedimentos, que têm sido
utilizados para esta finalidade, pelas várias culturas antigas e
não Ocidentais, cobrem uma muito ampla escala de interferências
drásticas com a respiração, para exercícios sutis e sofisticados
de várias tradições espirituais. Assim a forma original de batismo,
praticada pelos Essênios, envolvia a submersão forçada do iniciante
sob a água, por um prolongado período de tempo. Isto resultava em
uma experiência poderosa de morte e renascimento. Em alguns outros
grupos, os neófitos eram meio sufocados pela fumaça, pelo estrangulamento,
ou pela compressão das artérias carótidas.
As mudanças profundas na consciência podem ser induzidas por ambos
extremos na taxa da respiração, na hiperventilação e na retenção
prolongada da respiração, assim como usando-as em uma forma alternativa.
Muitos métodos sofisticados e avançados deste tipo podem ser encontrados
na antiga ciência indiana da respiração, ou no pranayama.
As técnicas específicas envolvendo intensa respiração ou retenção
da respiração são também parte de vários exercícios na Kundalini
ioga, Siddha ioga, o Vajrayana tibetano, a prática Sufi, a meditação
Taoísta e Burmese budista, e muitas outras.
As técnicas mais sutis, que enfatizam uma consciência especial com
relação à respiração, em particular as mudanças das dinâmicas respiratórias,
têm um lugar proeminente no Zen Budismo Soto (shikan taza)
e certas práticas taoístas e cristãs. Indiretamente, a profundidade
e o ritmo da respiração começam profundamente influenciados por
cada representação de ritual artístico, como o canto do macaco balines
ou Ketjak, a música da garganta esquimó de Inuit, o canto dos kirtans,
dos bhajans, ou o canto Sufi.
Nas últimas poucas décadas, os terapeutas ocidentais redescobriram
o potencial de cura da respiração e desenvolveram técnicas que a
utilizam. Temos, nós próprios, experimentado, no contexto de nossos
seminários mensais no Instituto Esalen, em Big Sur, Califórnia,
as várias abordagens envolvendo a respiração. Estes incluíram ambos
os exercícios respiratórios das tradições espirituais antigas, sob
a orientação de professores indianos e tibetanos, e as técnicas
desenvolvidas pelos terapeutas ocidentais. Cada uma destas abordagens
tem uma ênfase específica e usa a respiração de uma maneira diferente.
Em nossa própria busca por um método eficaz de uso do potencial
de cura da respiração, nós tentamos simplificar este processo tanto
quanto possível.
Nós chegamos à conclusão que é suficiente respirar mais rapidamente
e mais efetivamente do que o usual e com plena concentração no processo
interno. Ao invés da ênfase numa técnica específica de respiração,
nós seguimos, até mesmo nesta área, a estratégia geral do trabalho
holotrópico, para confiar na sabedoria intrínseca do corpo e seguir
as dicas internas. No trabalho com a respiração holotrópica, nós
incentivamos as pessoas a iniciarem a sessão com uma respiração
mais rápida e um tanto mais profunda, amarrando a inalação e a exalação
em um círculo contínuo de respiração. Uma vez no processo, eles
encontram seu próprio ritmo e maneira de respirar. Cada um dos participantes,
em sessões de TRH, usa a respiração de um modo diferente, mas seria
um erro acreditar que, conseqüentemente, a respiração é irrelevante
para esta abordagem.
Helen Bonny era a musicoterapeuta para o nosso programa de pesquisa
psicodélica, em Maryland. Nos anos seguintes, ela mostrou que a
música evocativa pode, sendo utilizada ou não, induzir poderosas
experiências e ela desenvolveu o que chama imagem guiada com música
(GIM). Muitos tipos de trabalho de respiração, incluindo o trabalho
de renascimento clássico, usam a respiração sem música. A meditação
Vipassana trabalha unicamente com uma certa qualidade de atenção.
No TRH, estes três elementos são combinados e parecem potencializar
uns aos outros.
* sitter - costumamos traduzir este termo, para o português,
como acompanhante ou testemunha, dando o sentido de acompanhante
que testemunha o processo do respirante.
** experienciadores - não existe esta palavra no dicionário
Aurélio, mas costumamos utilizá-la quando nos referimos às
pessoas que vivenciam uma experiência psíquica.
Entrevista extraída do "The Healing Breath", a Journal of Breathwork
Practice, Psychology and Spirituality. Volume 3, No. 3, September
2001.
General Editor: Joy Manné, Ph.D.
Esse artigo foi enviado
por Stanislav Grof e com a sua permissão foi incluído neste
website.
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